alquimia da alma

Premeditatio Malorum. A Arte Estoica de Imaginar o Pior Para Viver Melhor

Existe um exercício mental que a maioria das pessoas evita instintivamente. Imaginar que aquilo que mais amam pode desaparecer. Que o trabalho construído com anos de esforço pode ruir. Que a saúde que tomam como garantida pode se deteriorar. Que as pessoas que constituem o centro de suas vidas são mortais e finitas como todas as outras. A reação automática diante dessa possibilidade é desviar o olhar, mudar de assunto, fazer outra coisa. Os estoicos faziam exatamente o oposto. E tinham razões muito sólidas para isso.
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A premeditatio malorum, que em latim significa literalmente a premeditação dos males, é um dos exercícios práticos mais sofisticados que a filosofia estoica produziu. Não é pessimismo. Não é ansiedade cultivada. É uma tecnologia mental desenvolvida ao longo de séculos por pensadores que entenderam algo que a psicologia moderna levou milênios para confirmar: que o medo do que pode acontecer é frequentemente mais destrutivo do que o próprio evento temido, e que a única forma eficaz de desarmar esse medo é olhar diretamente para ele.

As raízes do exercício

A premeditatio malorum não foi inventada por um único pensador em um momento específico. Ela emergiu gradualmente da tradição estoica como uma das aplicações práticas do princípio central da filosofia do pórtico: a distinção entre o que depende de nós e o que não depende.

Zenão de Cítio, o fundador do estoicismo, estabeleceu as bases filosóficas que tornavam esse exercício não apenas possível mas necessário. Se o único bem verdadeiro é a virtude interior, e se tudo o que está fora do nosso controle é, em última análise, indiferente ao florescimento humano genuíno, então contemplar a perda dessas coisas externas é uma forma de treinar a mente para habituar-se a essa verdade filosófica. Não apenas aceitá-la intelectualmente, mas internalizá-la a ponto de que ela mude a forma como nos relacionamos com o mundo cotidianamente.

Crisipo de Solos, o filósofo que sistematizou a lógica e a psicologia estoica no século III a.C., desenvolveu a teoria das paixões perturbadoras que fundamenta o exercício. Para Crisipo, as emoções destrutivas como o medo, o desejo compulsivo e a ansiedade não eram reações automáticas e inevitáveis a eventos externos. Eram julgamentos, avaliações que a mente fazia sobre esses eventos. O medo de perder algo é, em sua estrutura profunda, o julgamento de que essa perda seria insuportável, que não haveria como continuar bem sem aquilo que se teme perder.

A premeditatio malorum ataca esse julgamento diretamente. Ao imaginar a perda com antecedência, o praticante testa a premissa de que ela seria insuportável. E frequentemente descobre que não seria.

Sêneca e a contemplação da mortalidade

Nenhum estoico escreveu sobre a premeditatio malorum com mais força e mais consistência do que Lúcio Aneu Sêneca, o filósofo, dramaturgo e político romano que viveu entre aproximadamente 4 a.C. e 65 d.C. Sêneca tinha uma relação peculiarmente intensa com a mortalidade: era de saúde frágil desde a infância, sobreviveu a pelo menos uma sentença de morte durante o reinado de Calígula, foi exilado para a Córsega por oito anos sob Cláudio e finalmente foi forçado a se suicidar por ordem de Nero, o imperador que havia sido seu pupilo.

Uma vida assim não deixa muito espaço para ilusões sobre a estabilidade das circunstâncias externas.

Em suas Cartas a Lucílio, uma correspondência filosófica com seu amigo Gaio Lucílio que se tornou um dos textos mais influentes do estoicismo, Sêneca retorna ao tema da premeditação dos males com uma regularidade que revela não apenas um princípio filosófico mas uma prática vivida. Em uma das cartas mais citadas, ele escreve que devemos nos habituar a pensar em tudo o que pode acontecer como se fosse acontecer.

Mas Sêneca vai além da simples preparação para eventos adversos. Para ele, a contemplação da mortalidade em particular, o memento mori que é o caso extremo da premeditatio malorum, tem uma função que vai além da preparação para a morte. Ela transforma a relação com a vida presente. Quem vive consciente de que cada dia pode ser o último não adia a gratidão, não posterga as conversas importantes, não trata o tempo como um recurso infinito que pode ser desperdiçado sem consequências.

Em seu tratado Sobre a Brevidade da Vida, Sêneca formula uma das observações mais perturbadoras da filosofia: a vida não é curta. Nós a tornamos curta. Temos tempo suficiente, mas desperdiçamos a maior parte dele em coisas que não têm valor real, precisamente porque não nos lembramos de que ele é finito. A premeditatio malorum é, entre outras coisas, uma cura para esse desperdício.

Marco Aurélio e o imperador que se lembrava de ser mortal

Marco Aurélio foi imperador de Roma de 161 a 180 d.C., o homem com mais poder formal no mundo ocidental de sua época. E ainda assim suas Meditações, escritas como diário pessoal sem intenção de publicação, são repletas de lembretes a si mesmo sobre a impermanência de tudo, incluindo sua própria vida e seu próprio poder.

Marco Aurélio praticava a premeditatio malorum de forma que revela a dimensão mais profunda do exercício. Não se tratava apenas de preparar-se para adversidades específicas. Era uma orientação geral diante da existência, um modo de habitar o presente com consciência de sua fragilidade.

Em uma das passagens mais memoráveis das Meditações, ele se lembra de imperadores poderosos que o precederam, de Alexandre Magno, de Júlio César, de Augusto, e observa que todos eles, com todo o seu poder e toda a sua glória, estão igualmente mortos. Essa reflexão não é mórbida. É uma forma de perspectiva. Se até os maiores foram levados, que sentido faz agarrar-se às circunstâncias externas como se fossem permanentes?

Marco Aurélio também praticava uma forma específica do exercício que consistia em olhar para as pessoas que amava, seu filho Cômodo, sua esposa Faustina, seus colaboradores próximos, e lembrar-se de que eram mortais e que poderiam partir antes dele ou que ele poderia partir antes delas. Não para gerar tristeza antecipada, mas para garantir que o amor que sentia por elas fosse expresso enquanto havia tempo, e que nenhuma perda futura pudesse surpreendê-lo com a sensação de que havia desperdiçado a oportunidade de amar com plena consciência.

Epicteto e a liberdade que ninguém pode confiscar

Epicteto, o escravo que se tornou filósofo, praticava e ensinava a premeditatio malorum a partir de uma perspectiva que nenhum outro estoico poderia oferecer com a mesma autoridade: a de quem já havia perdido quase tudo que é possível perder.

Nascido escravo, sem direito ao próprio corpo, tendo sofrido mutilação física nas mãos de seu senhor, Epicteto não precisava imaginar os piores cenários de forma abstrata. Ele os havia vivido. E o que sua experiência confirmava era exatamente o que a premeditatio malorum propunha: que é possível atravessar as piores circunstâncias sem perder o que realmente importa, desde que você saiba onde o que realmente importa está localizado.

Para Epicteto, o exercício tinha uma dimensão específica que ele chamava de amor fati, o amor pelo destino, embora essa expressão seja mais associada a Marco Aurélio e posteriormente a Nietzsche. A ideia era não apenas aceitar o que não pode ser mudado, mas desenvolvendo ao longo do tempo, através da prática, uma disposição genuína de acolhimento diante da realidade tal como ela se apresenta.

Em seu Encheiridion, o manual filosófico que seu discípulo Arriano compilou a partir de suas aulas, Epicteto começa com a distinção fundamental entre o que depende de nós e o que não depende. E todo o resto do texto é, em certa medida, um desenvolvimento das implicações práticas dessa distinção, sendo a premeditatio malorum uma das ferramentas centrais para internalizar essa distinção a ponto de que ela se torne uma segunda natureza.

A psicologia moderna confirma os estoicos

Durante séculos, a premeditatio malorum foi praticada principalmente em contextos filosóficos e espirituais. Nas últimas décadas, a psicologia científica chegou a conclusões que validam a sabedoria estoica através de um caminho completamente diferente.

A terapia cognitivo-comportamental, desenvolvida por Aaron Beck e Albert Ellis a partir dos anos 1950 e 1960, trabalha diretamente com os julgamentos automáticos que produzem sofrimento emocional desnecessário. O processo terapêutico envolve identificar esses julgamentos, examinar sua validade e substituí-los por avaliações mais precisas da realidade. Beck reconheceu explicitamente a influência de Epicteto em seu trabalho.

A terapia de aceitação e compromisso, uma abordagem mais recente, trabalha com o que chama de defusão cognitiva, a capacidade de observar os próprios pensamentos sem ser dominado por eles, e com a aceitação ativa das experiências difíceis em vez de sua evitação. A semelhança estrutural com a premeditatio malorum é imediata.

A pesquisa sobre resiliência psicológica também chegou a conclusões que os estoicos reconheceriam. Estudos com sobreviventes de traumas severos mostram consistentemente que as pessoas que se saem melhor a longo prazo são frequentemente aquelas que haviam desenvolvido, antes do trauma, uma capacidade de contemplar a adversidade sem ser paralisadas por ela. A exposição mental antecipada, que é essencialmente o que a premeditatio malorum propõe, reduz o impacto psicológico dos eventos adversos quando eles finalmente ocorrem.

O psicólogo Daniel Kahneman, cujo trabalho sobre os vieses cognitivos humanos ganhou o Nobel de Economia em 2002, documentou extensamente o que chamou de negligência da probabilidade e de viés do otimismo: a tendência humana de sistematicamente subestimar a probabilidade de eventos negativos e superestimar a probabilidade de resultados positivos. A premeditatio malorum é um antídoto direto para esse viés, não porque seja pessimista, mas porque é realista.

Como praticar: do abstrato ao concreto

A premeditatio malorum não é um exercício que se faz uma vez e se arquiva. É uma prática regular, como o treinamento físico, que produz efeitos apenas através da repetição consistente ao longo do tempo.

Em sua forma mais simples, o exercício consiste em dedicar alguns minutos, preferencialmente pela manhã, a contemplar o que poderia dar errado no dia, na semana ou na vida de forma mais ampla. Não de forma ansiosa e catastrófica, varrendo todos os cenários possíveis em pânico crescente, mas de forma deliberada e calma, como um navegador que examina o mapa antes de zarpar e identifica os possíveis pontos de perigo sem por isso decidir não navegar.

A diferença entre a premeditatio malorum praticada corretamente e a ruminação ansiosa é precisamente essa: a ruminação é involuntária, circular e paralisante. A premeditação estoica é voluntária, direcionada e liberadora. Você escolhe quando entrar e quando sair do exercício, o que já é um exercício de controle sobre a própria mente.

Sêneca praticava uma versão mais radical: reservava alguns dias por mês para viver voluntariamente em condições de escassez, comendo o mínimo, dormindo sem conforto, dispensando os luxos que sua riqueza lhe permitia. Não por ascetismo religioso, mas para verificar na prática o que sabia na teoria: que era possível viver bem sem todas aquelas coisas, e que portanto o medo de perdê-las não tinha a autoridade que costumava exercer sobre sua mente.

O que o exercício revela sobre nós

Há um efeito colateral da premeditatio malorum que os estoicos mencionavam com frequência e que a experiência prática confirma: o exercício é um espelho extraordinariamente honesto dos valores reais de uma pessoa, não os valores que ela declara ter, mas os que efetivamente governam sua vida.

Quando você imagina perder algo e a ansiedade gerada é desproporcional, isso é informação. Está revelando onde sua identidade está ancorada, o que você acredita no fundo que é indispensável para que você continue sendo quem é. E nem sempre essa revelação é confortável.

Alguém que imagina perder o emprego e sente um terror existencial desproporcional está descobrindo que havia depositado sua identidade e seu senso de valor próprio naquele emprego de uma forma que ultrapassa o razoável. Alguém que imagina perder a aprovação das pessoas ao redor e sente o chão desaparecer está descobrindo que havia terceirizado para o julgamento alheio a tarefa de determinar seu próprio valor.

O exercício não julga essas descobertas. Ele simplesmente as traz à luz, onde podem ser examinadas. E o que pode ser examinado pode, eventualmente, ser transformado.

Isso é o que os estoicos chamavam de filosofia prática: não um sistema de ideias para admirar de longe, mas uma caixa de ferramentas para trabalhar sobre si mesmo com a mesma seriedade e a mesma regularidade com que um artesão trabalha sobre sua matéria.

A premeditatio malorum não promete que nada de ruim vai acontecer. Promete algo mais valioso: que quando acontecer, e em algum momento vai acontecer, você não será pego completamente de surpresa, e que a distância entre o evento e sua resposta a ele será, por causa da prática, um pouco maior do que seria sem ela.

Nesse espaço pequeno e difícil de cultivar mora, segundo os estoicos, tudo o que é possível chamar de liberdade.

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Hermes Fulcanelli

Inspirado pelas jornadas espirituais e físicas da alquimia, hermetismo e estoicismo, Hermes Fulcanelli conecta passado e presente por meio de suas profundas explorações em mitologia e espiritualidade, guiando seus pacientes e leitores em suas próprias viagens de autodescoberta e iluminação em ciência, filosofia e religião.
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