alquimia da alma

Helena Blavatsky, a Mulher que o Século XIX Não Sabia como Classificar

Existem pessoas que perturbam a ordem do mundo simplesmente por existir. Não porque sejam violentas ou poderosas no sentido convencional, mas porque encarnam uma possibilidade que o ambiente ao redor preferia ignorar. Helena Petrovna Blavatsky foi esse tipo de pessoa. Numa época em que as mulheres de sua classe social tinham um roteiro bastante estreito a seguir, ela atravessou continentes sozinha, fundou um movimento que ainda existe, escreveu obras que intelectuais sérios ainda debatem e foi simultaneamente celebrada como gênia e denunciada como charlatã, às vezes pelas mesmas pessoas. O que é difícil de negar, independentemente do que se pense de suas ideias, é que ela foi uma das figuras mais improváveis e mais influentes do século XIX.
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Uma Infância que Já Não Cabia nos Limites

Helena Petrovna von Hahn nasceu em 1831 em Ekaterinoslav, cidade que hoje pertence à Ucrânia e que na época fazia parte do Império Russo. Sua família era aristocrática: o pai era oficial do exército, a mãe era romancista, os avós maternos pertenciam à nobreza russa. Era o tipo de origem que, para uma mulher daquele tempo, deveria garantir um destino previsível.

A mãe morreu quando Helena tinha onze anos, e ela foi criada principalmente pela avó materna, uma mulher culta que tinha acesso a uma biblioteca considerável e que não via problema em deixar a neta vagar por ela livremente. Relatos de pessoas que a conheceram na infância descrevem uma criança difícil de conter: impetuosa, curiosa, com uma imaginação que os adultos ao redor não sabiam bem se admirar ou temer.

Aos dezessete anos, em 1848, ela se casou com Nikifor Blavatsky, vice-governador da província de Erivan, um homem muito mais velho do que ela. O casamento foi curto e, pelo que se pode reconstituir, nunca foi consumado. Ela o abandonou em questão de meses e começou uma vida que desafiava qualquer tentativa de descrição ordenada.

As Décadas que Ninguém Consegue Verificar Completamente

O período que vai do abandono do marido até a fundação da Sociedade Teosófica, em 1875, é o mais controverso da biografia de Blavatsky. Ela afirmava ter viajado pela Europa, pelas Américas, pela África, pelo Oriente Médio, pela Índia e pelo Tibet. Dizia ter estudado com mestres espirituais no Tibet durante anos, recebendo um treinamento que a preparou para a missão que viria a ser sua vida.

Nenhuma dessas alegações pode ser verificada com precisão. Os historiadores confirmam que ela esteve em vários países, mas a cronologia exata e a natureza de suas experiências permanecem abertas à discussão. Sabe-se que ela esteve nos Estados Unidos no início da década de 1870, que participou de sessões espíritas, que trabalhou em vários empregos incomuns para uma mulher de sua origem e que desenvolveu, ao longo dessas décadas, um conhecimento impressionantemente amplo de religiões comparadas, filosofia antiga e tradições esotéricas.

Seja lá o que aconteceu nesses anos, o que emerge do outro lado é uma mulher com um domínio enciclopédico de materiais que poucos estudiosos de sua época conheciam em profundidade, e com uma energia e determinação que não encontravam paralelo fácil ao redor dela.

Nova York, 1875, e a Criação de um Movimento

Em setembro de 1875, em Nova York, Helena Blavatsky co-fundou com Henry Steel Olcott e William Quan Judge a Sociedade Teosófica. Olcott era advogado e jornalista, um homem respeitável que havia coberto o assassinato de Lincoln e servido como investigador do governo americano durante a Guerra Civil. Sua associação com Blavatsky foi, para muitos de seus contemporâneos, inexplicável.

Os objetivos declarados da Sociedade Teosófica eram três: promover a fraternidade universal da humanidade sem distinção de raça, credo, sexo, casta ou cor; encorajar o estudo comparativo de religiões, filosofias e ciências; e investigar as leis inexplicadas da natureza e os poderes latentes no ser humano.

Esses objetivos pareciam amplos demais para definir qualquer coisa concreta. Na prática, a Teosofia que Blavatsky desenvolveu era uma síntese ambiciosa de elementos do hinduísmo, do budismo, do neoplatonismo, da Cabala, da tradição hermética e de outras correntes esotéricas, organizada em torno da ideia de que existe uma sabedoria antiga, perene e universal que subjaz a todas as religiões e tradições, e que pode ser acessada por quem estiver disposto a estudar com seriedade suficiente.

Ísis Sem Véu e A Doutrina Secreta

Em 1877, Blavatsky publicou Ísis Sem Véu, dois volumes densos que tentavam demonstrar que o conhecimento esotérico antigo era compatível com e superior ao materialismo científico e ao dogma religioso convencional. O livro teve uma recepção dividida, mas foi um sucesso de vendas suficiente para estabelecer sua reputação como escritora séria dentro de um campo que o establishment intelectual preferia ignorar.

A obra maior veio em 1888. A Doutrina Secreta, também em dois volumes, é uma das leituras mais exigentes que a literatura esotérica do século XIX produziu. Blavatsky organiza ali uma cosmologia completa, uma teoria da evolução humana que vai muito além do biológico e uma análise comparativa de tradições religiosas e filosóficas de diferentes partes do mundo. As fontes são heterodoxas, a metodologia não é acadêmica no sentido convencional e as afirmações são frequentemente impossíveis de verificar. Mas a amplitude do conhecimento demonstrado e a originalidade da síntese são difíceis de descartar.

William Butler Yeats, que foi membro da Sociedade Teosófica antes de se associar à Ordem Hermética da Aurora Dourada, descreveu A Doutrina Secreta como um livro de uma erudição desconcertante. Thomas Edison, que também foi membro da Sociedade Teosófica, demonstrou interesse consistente nas ideias de Blavatsky. Gandhi, estudando em Londres no final da década de 1880, entrou em contato com o hinduísmo de uma forma mais aprofundada precisamente através de membros da Sociedade Teosófica, e mencionou esse contato em sua autobiografia.

O Relatório Hodgson e a Questão da Fraude

Em 1884, a Sociedade de Pesquisa Psíquica enviou Richard Hodgson à sede da Sociedade Teosófica em Adyar, na Índia, para investigar alegações de fenômenos paranormais produzidos por Blavatsky. O relatório que Hodgson publicou em 1885 foi devastador: concluiu que os fenômenos eram fraudulentos e que Blavatsky era uma impostora.

O impacto foi enorme. A reputação de Blavatsky sofreu um golpe do qual ela nunca se recuperou completamente em vida. Mas a história do relatório Hodgson não termina aí.

Em 1986, Vernon Harrison, especialista em detecção de fraudes e membro da própria Sociedade de Pesquisa Psíquica, publicou uma análise metodológica do relatório de Hodgson e concluiu que ele estava cheio de falhas graves, que as evidências haviam sido interpretadas de forma tendenciosa e que as conclusões não eram sustentadas pelos dados apresentados. A Sociedade de Pesquisa Psíquica não retirou formalmente o relatório, mas a questão permanece genuinamente aberta entre os historiadores que estudaram o caso com cuidado.

Isso não prova que Blavatsky era autêntica em todas as suas afirmações. Mas significa que a narrativa de fraude comprovada é mais complicada do que costuma ser apresentada.

O que Ela Deixou no Mundo

Blavatsky morreu em Londres em 1891, aos 59 anos, com a saúde destruída por décadas de trabalho intenso e por condições de vida que raramente foram confortáveis. Deixou a Sociedade Teosófica funcionando em vários países, uma biblioteca de escritos que ainda é publicada e relida, e uma influência que se ramifica em direções que ela provavelmente não antecipou.

O movimento New Age do século XX, com sua síntese de tradições espirituais orientais e ocidentais, sua ênfase na evolução espiritual individual e sua busca por uma espiritualidade não dogmática, deve mais a Blavatsky do que a maioria de seus praticantes sabe. Rudolf Steiner, que fundou a Antroposofia, começou sua trajetória dentro do movimento teosófico. A recepção ocidental do budismo tibetano foi mediada, em parte significativa, pelo trabalho que Olcott e Blavatsky fizeram no Sri Lanka e na Índia, onde se engajaram ativamente com tradições budistas locais.

No campo da literatura e da arte, a influência é igualmente rastreável. Kandinsky, considerado um dos fundadores da pintura abstrata, foi leitor de Blavatsky e citou A Doutrina Secreta como uma das influências em sua busca por uma arte que expressasse realidades além do visível. Mondrian foi membro da Sociedade Teosófica. A ideia de que a forma artística poderia expressar dimensões espirituais da realidade, ideia central na origem da arte abstrata europeia, circulava em ambientes profundamente influenciados pelo pensamento teosófico.

Por que ela Ainda Incomoda

Há algo na figura de Blavatsky que continua sendo difícil de encaixar em categorias confortáveis, e isso talvez seja o que explica por que ela continua sendo discutida.

Ela não era uma líder religiosa convencional porque negava qualquer revelação pessoal exclusiva e insistia que o que ensinava era verificável por qualquer um disposto a estudar. Não era uma acadêmica porque sua metodologia ignorava as fronteiras disciplinares que a academia construía cuidadosamente. Não era uma fraude simples porque a amplitude e a profundidade de seu conhecimento não se explicam por truques de salão. Não era uma mística no sentido de alguém que se retirou do mundo: era combativa, polêmica, fumava constantemente, tinha um senso de humor ácido e entrava em disputas públicas com uma frequência que desconcertava seus próprios seguidores.

O que ela era, com mais precisão do que qualquer outro rótulo, era uma sintetizadora. Alguém que leu mais do que quase todos ao seu redor, que viajou mais do que quase todas as mulheres de sua época e classe, que recusou a separação entre ciência, filosofia e espiritualidade como se essa separação fosse uma verdade natural em vez de uma convenção histórica recente, e que dedicou sua vida inteira a construir um argumento de que o ser humano é mais do que o materialismo do século XIX conseguia descrever.

Se esse argumento é verdadeiro ou falso, cada leitor precisa decidir por si mesmo. Mas o fato de que ele ainda provoca reações, mais de um século depois, sugere que a pergunta que Blavatsky passou a vida fazendo ainda não recebeu uma resposta satisfatória.

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Foto de Hermes Fulcanelli

Hermes Fulcanelli

Inspirado pelas jornadas espirituais e físicas da alquimia, hermetismo e estoicismo, Hermes Fulcanelli conecta passado e presente por meio de suas profundas explorações em mitologia e espiritualidade, guiando seus pacientes e leitores em suas próprias viagens de autodescoberta e iluminação em ciência, filosofia e religião.
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