alquimia da alma

Hermes. O Deus que Nunca Ficou Parado e Por Isso Sabe de Tudo

Os gregos tinham um deus para cada aspecto da existência que consideravam sagrado o suficiente para merecer uma divindade. Havia deuses da guerra, do amor, da sabedoria, do vinho, do fogo. Mas havia um deus que não cabia em nenhuma categoria porque cabia em todas. Um deus dos limites que não respeitava limites. Um deus da comunicação que mentia com elegância. Um deus dos viajantes que havia nascido numa caverna e nunca parou de se mover desde então. Um deus do comércio que havia roubado antes mesmo de aprender a andar.
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Hermes era o mais impossível de classificar entre os olímpicos, e essa impossibilidade não era defeito de concepção. Era a sua função. Num panteão onde cada divindade representava um domínio fixo, Hermes era o princípio que tornava os domínios comunicáveis entre si. E talvez por isso tenha sido o único deus grego cujo nome atravessou os séculos para se tornar adjetivo, substantivo e nome de uma das tradições filosóficas mais influentes da história humana.

O Nascimento Mais Produtivo da Mitologia Grega

A história do nascimento de Hermes é uma das mais reveladoras da mitologia grega, não pelo drama que contém, mas pelo que revela sobre o caráter que os gregos atribuíam a esse deus desde o primeiro instante de sua existência.

Hermes nasceu numa caverna do monte Cilene, na Arcádia, filho de Zeus e da ninfa Maia, filha do titã Atlas. Maia havia sido discreta o suficiente para esconder sua gravidez de Hera, a esposa enciumada de Zeus, escolhendo os momentos em que a deusa dormia para se encontrar com o rei dos deuses. A própria concepção de Hermes foi, portanto, um ato de discrição estratégica, uma negociação entre o desejo e a prudência que já prefigurava algo sobre o filho que viria.

O que o bebê fez no dia em que nasceu virou uma das histórias mais contadas do ciclo mítico grego. Saiu da caverna ainda na manhã do primeiro dia, encontrou uma tartaruga, esvaziou o casco, esticou cordas de intestino de ovelha sobre ele e inventou a lira num único gesto de improviso criativo. Até aqui seria uma história sobre gênio precoce. Mas Hermes não parou aí.

Na mesma tarde, caminhou até a Piéria, onde Apolo guardava seu rebanho sagrado de cinquenta bois, e roubou os animais com uma engenhosidade que merece atenção nos detalhes. Amarrou ramos nos pés dos bois para apagar as pegadas, os fez caminhar para trás para confundir a direção das marcas no chão, e fabricou sandálias para si mesmo com galhos de tamareira que deixavam rastros irreconhecíveis. Sacrificou dois dos bois aos doze deuses olímpicos, incluindo a si mesmo numa contagem que já indicava como entendia seu próprio lugar no cosmos, e voltou para a caverna como se nada tivesse acontecido.

Quando Apolo descobriu o roubo e o confrontou, Hermes negou com uma serenidade que beirava o absurdo. Dizia ser um bebê de um dia, incapaz de tais façanhas. Zeus, que havia assistido a tudo do Olimpo com uma mistura de escândalo e admiração paterna, interveio e forçou uma reconciliação. Hermes devolveu os bois e entregou a lira que havia inventado. Apolo ficou tão encantado com o instrumento que deu ao irmão em troca seu cajado de ouro e, mais tarde, ensinou-lhe a arte da adivinhação.

O que essa história transmite sobre Hermes é mais sofisticado do que parece. Não é uma narrativa de punição e arrependimento. É a história de como o deus mais ágil do panteão estabeleceu suas relações de troca, mostrando que o que parece roubo pode ser o início de uma negociação, e que o valor de um objeto depende de quem o deseja e por quê.

O Mensageiro que Sabia Mais do que Entregava

A função pela qual Hermes é mais amplamente conhecido, a de mensageiro dos deuses, é também a mais facilmente mal interpretada. Mensageiro sugere passividade, um portador de palavras alheias sem agência própria. Hermes era o oposto disso.

Como mensageiro, Hermes transitava livremente entre todos os domínios do cosmos grego, o Olimpo, a Terra e o submundo. Nenhum outro deus tinha essa mobilidade irrestrita. Apolo ficava fora do Hades. Ares tinha seus domínios. Até Zeus, o mais poderoso, operava dentro de certas convenções de movimento. Hermes atravessava fronteiras por definição, e isso significava que ele sabia o que acontecia em todos os lugares enquanto cada habitante de cada domínio conhecia apenas o seu.

Essa posição produzia um tipo de conhecimento que os gregos reconheciam como distinto e precioso. Não era a sabedoria contemplativa de Atena, construída sobre reflexão e estratégia. Não era o conhecimento profético de Apolo, que via o futuro de um ponto fixo. Era o conhecimento de quem estava sempre em trânsito, sempre no meio, sempre entre uma coisa e outra. O conhecimento das fronteiras, das passagens, dos momentos em que uma coisa deixa de ser o que era e ainda não é o que será.

Os atributos físicos de Hermes codificam essa natureza de forma elegante. As sandálias aladas, os talária, permitiam um movimento que não respeitava a gravidade nem a geografia. O chapéu alado, o pétaso, cobria sem revelar completamente, protegendo o viajante sem isolá-lo. O caduceu, o bastão com duas serpentes entrelaçadas e asas no topo, era o símbolo de sua função como mensageiro e negociador, uma imagem de forças opostas em equilíbrio dinâmico que atravessou séculos para aparecer em contextos que os gregos jamais poderiam ter imaginado.

O Psicopompo e a Fronteira que Ninguém Quer Cruzar

Entre as funções de Hermes, uma se destaca pela profundidade do que implica. Hermes era o psicopompo, o guia das almas, aquele que conduzia os mortos do mundo dos vivos para o submundo de Hades. Não era o senhor da morte, papel que pertencia a Hades, nem seu algoz, papel de outras entidades míticas. Era o condutor, aquele que acompanhava a transição.

Essa função coloca Hermes numa posição única no imaginário religioso grego. A morte era o limite por excelência, a fronteira que nenhum ser vivo deveria cruzar e retornar. Hermes a cruzava continuamente nos dois sentidos, levando almas ao submundo e voltando ao mundo dos vivos sem que isso o marcasse ou o contaminasse da forma que marcaria qualquer outro.

Quando Perséfone precisou ser trazida de volta do Hades após a negociação entre Zeus e Deméter, foi Hermes quem desceu a buscar. Quando Orfeu tentou recuperar Eurídice, a narrativa pressupõe um território onde a autoridade de Hermes como guia era reconhecida. Quando Odisseu, na Odisseia, precisou de proteção contra os feitiços de Circe, foi Hermes quem apareceu com a erva moli que neutralizava a magia da feiticeira.

O padrão é consistente. Hermes aparece precisamente onde as categorias se dissolvem, onde vivo e morto, humano e divino, real e encantado precisam ser navegados por alguém que não pertence inteiramente a nenhum dos lados.

O Deus dos Ladrões, dos Comerciantes e dos Oradores

A lista de domínios sob a proteção de Hermes revela uma coerência interna que a aparente heterogeneidade obscurece. Ele era patrono dos viajantes, dos comerciantes, dos ladrões, dos pastores, dos atletas, dos mensageiros, dos inventores e dos oradores. À primeira vista parece uma coleção aleatória. Existe um fio conectando tudo.

Cada um desses grupos vive de alguma forma na fronteira entre categorias fixas. O comerciante transita entre quem tem e quem precisa, entre o valor que uma coisa tem num lugar e o valor que tem em outro. O ladrão transgride a linha entre o que é de alguém e o que passa a ser de outro. O orador transita entre o que pensa e o que o público entende, trabalhando na zona intermediária onde a língua converte intenção em efeito. O viajante está sempre entre um lugar e outro, nunca completamente aqui nem completamente lá.

Hermes não era o patrono dessas atividades apesar de sua natureza. Era seu patrono precisamente por causa dela. O deus das fronteiras protegia quem vivia das fronteiras.

Essa lógica explica também por que Hermes era associado à linguagem de forma tão profunda. A linguagem é o fenômeno liminar por excelência, o meio pelo qual o que está dentro de uma mente se torna acessível a outra mente, cruzando a fronteira da subjetividade para criar algo compartilhado. Hermes não havia inventado apenas a lira. Os gregos atribuíam a ele a invenção do alfabeto, dos números, da astronomia, da música, das artes e da ginástica. Era o deus das invenções que criam pontes entre o que existe e o que ainda não existia.

As Hermas e o Deus que Guardava as Entradas

Na Grécia antiga, pilares de pedra quadrada com a cabeça de Hermes esculpida no topo e um falo ereto na frente eram colocados em cruzamentos, nas entradas de casas, nas fronteiras de propriedades e nos limites de cidades. Chamavam-se hermas, e sua função era simultaneamente protetora e marcadora. Indicavam uma fronteira e invocavam o deus que a protegia.

A herma captura algo essencial sobre como os gregos concebiam Hermes. Ele não era apenas quem cruzava fronteiras. Era quem as tornava cruzáveis com segurança, quem garantia que a passagem de um espaço a outro não fosse caótica mas ordenada, que o encontro entre estranhos num cruzamento pudesse acontecer sob alguma proteção.

Em 415 a.C., na véspera da grande expedição ateniense à Sicília, as hermas de Atenas foram mutiladas numa noite. Suas cabeças foram quebradas, seus falos removidos. O escândalo foi imenso, não apenas pelo sacrilégio mas pela interpretação política que se impôs imediatamente. Profanar as hermas na véspera de uma expedição militar era destruir a proteção que o deus oferecia a quem partia para território desconhecido. A investigação que se seguiu alterou o curso da política ateniense e arrastou Alcibíades, um dos generais mais brilhantes da época, para um exílio que comprometeu a expedição antes mesmo de ela zarpar.

O episódio mostra como a presença de Hermes na vida cotidiana ateniense não era apenas religiosa no sentido abstrato. Era prática, integrada ao ritmo da cidade, às partidas, às chegadas, às transações e às fronteiras que estruturavam a existência coletiva.

Hermes e Mercúrio e a Transformação que Não Destrói

Quando os romanos incorporaram o panteão grego ao seu próprio sistema religioso, Hermes tornou-se Mercúrio com uma facilidade que não foi acidental. Os romanos reconheceram em Hermes um deus cujas funções correspondiam a algo que sua própria cultura valorizava profundamente. O comércio, a comunicação, o movimento, a eloquência.

Mas Mercúrio ganhou ênfases que revelam diferenças sutis entre as duas culturas. O Hermes grego era fundamentalmente um deus da mobilidade intelectual e da transgressão criativa. O Mercúrio romano era mais explicitamente um deus do comércio e da prosperidade, refletindo a vocação mercantil de Roma e o valor que a cultura romana atribuía à riqueza material como evidência de virtude.

O nome Mercúrio sobreviveu à queda de Roma de formas que mostram como certos arquétipos têm vidas mais longas do que os sistemas culturais que os nomearam. O mercúrio como elemento químico, o metal líquido e prateado que os alquimistas medievais chamavam de espírito dos metais por sua capacidade de transitar entre estados e dissolver outros metais, foi nomeado pelo planeta Mercúrio e, por extensão, pelo deus. O dia da semana quarta-feira carrega seu nome em diversas línguas europeias. O caduceu sobreviveu como símbolo médico e comercial, uma imagem cujas origens míticas a maioria de quem a usa desconhece completamente.

Hermes Trismegisto e a Segunda Vida de um Deus

A influência mais profunda e menos discutida de Hermes na história intelectual ocidental acontece através de uma figura que não é exatamente o deus grego mas que não existiria sem ele. Hermes Trismegisto, o Três Vezes Grande, é o nome pelo qual a tradição hermética identificou uma sabedoria que mesclava o Hermes grego com o deus egípcio Thoth, a divindade da escrita, da magia e do conhecimento sagrado.

No Egito helenístico, especialmente em Alexandria nos primeiros séculos da era cristã, essa fusão produziu o Corpus Hermeticum, um conjunto de textos que tentava articular uma sabedoria primordial sobre a natureza do cosmos, da alma e da divindade. O nome Hermes Trismegisto funcionava como autoridade dessa sabedoria, sugerindo que havia uma tradição que precedia tanto o pensamento grego quanto o egípcio e que os unificava numa perspectiva mais fundamental.

Isaac Casaubon demonstrou em 1614 que os textos herméticos não tinham a antiguidade que afirmavam. Eram composições do período helenístico tardio, não palavras de um sábio anterior a Moisés. Mas o hermetismo sobreviveu à descoberta porque as ideias que continha não dependiam de sua antiguidade para funcionar. E no centro dessas ideias estava a figura de Hermes como princípio que torna possível a comunicação entre planos distintos da realidade, entre o humano e o divino, entre o visível e o invisível, entre o que se sabe e o que ainda pode ser conhecido.

Essa versão de Hermes alimentou a alquimia alexandrina, o neoplatonismo, o pensamento renascentista de Ficino e Pico della Mirandola, as correntes rosacruzes e maçônicas dos séculos XVII e XVIII, e chegou ao século XX através de Jung, que encontrou em Hermes um arquétipo do que chamou de Mercúrio alquímico, o princípio transformador que opera entre os opostos sem se fixar em nenhum deles.

O Que Hermes Ainda Faz

Existe uma razão pela qual Hermes nunca foi completamente domesticado pela história. Os deuses que representam domínios fixos podem ser arquivados quando a cultura que os criou desaparece. O deus da guerra se torna uma figura histórica quando a guerra deixa de ser sagrada. O deus do sol se torna astronomia quando o sol deixa de ser divino.

Hermes resiste ao arquivo porque o que ele representa não pertence a uma época. A fronteira entre o conhecido e o desconhecido não desaparece com o progresso. O espaço intermediário onde a comunicação acontece, onde sentidos se transferem de uma mente para outra, onde o símbolo carrega algo que a definição literal não alcança, esse espaço continua existindo independentemente do sistema de crenças que o nomeia.

Hermes era o deus dos limites que não ficava parado. Era o guia que conhecia todos os caminhos sem pertencer a nenhum. Era o mensageiro que sabia mais do que entregava. Era o ladrão que transformava o roubo em troca, a troca em relação e a relação em conhecimento.

Que esse deus tenha emprestado seu nome a uma tradição filosófica que ainda hoje influencia como certas pessoas pensam sobre consciência, transformação e a relação entre o humano e o divino não é coincidência histórica. É a continuidade de uma intuição que os gregos tiveram antes de ter as palavras precisas para ela. Que o princípio que move entre os domínios fixos, que torna possível a passagem de um estado a outro, que habita o limiar onde as categorias se dissolvem antes de se reorganizar em formas novas, esse princípio é também o fundamento de qualquer busca genuína por conhecimento.

Hermes não ficava parado. E por isso sabia de tudo.

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Foto de Hermes Fulcanelli

Hermes Fulcanelli

Inspirado pelas jornadas espirituais e físicas da alquimia, hermetismo e estoicismo, Hermes Fulcanelli conecta passado e presente por meio de suas profundas explorações em mitologia e espiritualidade, guiando seus pacientes e leitores em suas próprias viagens de autodescoberta e iluminação em ciência, filosofia e religião.
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