Nessa escolha está a essência de Avicena. Quando o mundo lhe ofereceu riqueza, poder ou prestígio, ele pediu livros.
O menino de Afshana que o mundo inteiro ainda não era suficiente
Abu Ali al-Husayn ibn Abd Allah ibn Sina nasceu em 980 depois de Cristo em Afshana, uma pequena aldeia próxima a Bukhara, cidade que hoje pertence ao Uzbequistão mas que no século X era um dos centros culturais mais vibrantes do mundo islâmico. Seu pai era um administrador culto da região, seguidor do ismaelismo, uma corrente filosófica e espiritual do Islã que valorizava o conhecimento racional como caminho para a compreensão do divino. Esse ambiente intelectual em casa foi o primeiro laboratório de Avicena.
A velocidade com que ele absorveu os saberes disponíveis não era apenas espantosa. Era perturbadora para quem o observava. Concluiu o estudo do Alcorão e da literatura árabe antes dos dez anos. Aos doze, começou a estudar jurisprudência islâmica, filosofia e lógica com professores que logo admitiram não ter mais o que oferecer. Começou então a estudar sozinho, relendo os mesmos textos repetidas vezes, não para memorizar mas para destilar o que havia de mais profundo em cada argumento.
A Metafísica de Aristóteles foi um obstáculo que quase o deteve. Ele conta em sua autobiografia que a leu quarenta vezes sem conseguir penetrar plenamente seu significado. Só compreendeu depois de encontrar por acaso um pequeno comentário de Al-Farabi, o filósofo islâmico do século anterior, que havia esclarecido o propósito da obra. A história é reveladora porque Avicena não desistiu após a trigésima leitura nem após a trigésima quinta. A teimosia intelectual era parte constitutiva de seu gênio.
A medicina como filosofia natural
Para entender o que Avicena fez pela medicina é preciso compreender como o conhecimento médico estava organizado no mundo islâmico do século X. Galeno havia sido traduzido e comentado durante séculos por médicos árabes, siríacos e persas, e sua autoridade era praticamente incontestável. Hipócrates era venerado como fundador. Aristóteles fornecia a estrutura filosófica que dava sentido a todo o resto. O problema era que esses três sistemas, o hipocrático, o galeniano e o aristotélico, não foram desenhados para funcionar juntos e apresentavam contradições que ninguém havia resolvido de maneira satisfatória.
Avicena resolveu. O Cânon da Medicina, que em árabe se chama Al-Qanun fi al-Tibb, foi o resultado dessa síntese monumental. Escrito quando ele tinha por volta de trinta anos, o livro reuniu em cinco volumes enciclopédicos a totalidade do conhecimento médico disponível, organizado com uma clareza lógica que seus predecessores não haviam alcançado. O primeiro volume tratava dos princípios gerais da medicina, incluindo anatomia, fisiologia, higiene e causas gerais das doenças. O segundo catalogava medicamentos simples de origem vegetal, animal e mineral. O terceiro e o quarto abordavam doenças específicas organizadas da cabeça aos pés. O quinto descrevia preparações farmacêuticas compostas.
Essa estrutura parece óbvia de uma perspectiva moderna, mas no século XI era uma inovação organizacional sem precedente. O Cânon não era apenas uma coleção de conhecimentos. Era um sistema, com premissas claramente enunciadas, hierarquia de conceitos bem definida e metodologia de diagnóstico e tratamento internamente coerente. Médicos que o estudavam não precisavam apenas memorizar procedimentos. Podiam entender os princípios e aplicá-los a situações novas.
O que o Cânon ensinou que ainda usamos hoje
As contribuições específicas de Avicena à medicina são mais concretas e mais duradouras do que costumam aparecer nos resumos históricos. Ele foi o primeiro a descrever de forma precisa a anatomia do olho e a oferecer uma explicação do mecanismo da visão que separava claramente a função do cristalino da função da retina. Descreveu a meningite com uma clareza clínica que permanece reconhecível. Distinguiu a pleurisia da pneumonia com base em critérios de diagnóstico diferencial que continuam válidos.
Avicena compreendeu que a água e o solo podiam carregar doenças, propondo medidas de quarentena para evitar a propagação de enfermidades contagiosas num período em que o conceito de microrganismo sequer existia como possibilidade intelectual. Sua recomendação de usar quarentena de quarenta dias para isolar doentes é, segundo alguns historiadores da medicina, a origem do próprio termo quarantine, derivado do italiano quarantina, que significa justamente esse período. A intuição de que havia algum agente transmissível no ar ou na água de zonas infectadas, mesmo sem os instrumentos conceituais para identificá-lo, representa um salto inferencial notável.
Na farmacologia, Avicena testou medicamentos com um rigor proto-científico que impressiona. Estabeleceu critérios para avaliar a eficácia de um medicamento que incluíam a necessidade de testar em condições controladas, verificar se os efeitos observados eram consistentes em diferentes situações e distinguir o efeito do medicamento dos efeitos naturais da progressão da doença. Esses princípios antecipam em séculos a lógica do ensaio clínico moderno.
O filósofo que sabia que a medicina não bastava
Avicena nunca foi apenas médico. A medicina era para ele uma das ciências naturais, e as ciências naturais eram um degrau na escada ascendente em direção à compreensão do cosmos. Sua obra filosófica é tão vasta quanto a médica, e em alguns aspectos mais ousada.
O Livro da Cura, cujo nome em árabe é Kitab al-Shifa e que apesar do título trata de filosofia e não de medicina, é uma enciclopédia do conhecimento racional que abrange lógica, matemática, física, música, astronomia, psicologia e metafísica. Nessa obra, Avicena desenvolveu argumentos filosóficos originais que foram debatidos por pensadores cristãos, judeus e islâmicos durante séculos, e alguns dos quais ainda figuram nos debates contemporâneos de filosofia da mente.
O mais famoso é o chamado argumento do Homem Voador. Avicena pede que o leitor imagine um ser humano criado subitamente na idade adulta, suspenso no ar sem nenhuma sensação corporal, sem ver, ouvir, tocar ou sentir o próprio peso. Esse ser seria capaz de duvidar da existência de seu próprio corpo, mas não da existência de si mesmo como entidade pensante. Portanto, a consciência não depende do corpo para se reconhecer como real. O argumento antecipa em seis séculos o cogito ergo sum de Descartes, e os estudiosos debatem até hoje em que medida Descartes tinha conhecimento das obras de Avicena através das traduções latinas que circulavam na Europa desde o século XII.
A relação difícil com a alquimia
Avicena ocupa na história da alquimia uma posição peculiar e muitas vezes mal compreendida. Ao contrário da maioria dos pensadores islâmicos de seu tempo, que tratavam a transmutação de metais como uma possibilidade filosófica legítima, Avicena era abertamente cético. Em um tratado dedicado ao assunto, argumentou que a transformação de um metal em outro era impossível porque as diferenças entre os metais não eram superficiais e não podiam ser alteradas por processos laboratoriais. O que os alquimistas conseguiam era imitar a aparência do ouro, não produzir ouro de verdade.
Essa posição lhe valeu críticas severas dos defensores da alquimia transmutacional, incluindo o grande alquimista Jabir ibn Hayyan, cujos seguidores reagiram com textos polemizando explicitamente contra Avicena. O paradoxo é que sua obra médica, com a teoria dos humores, dos temperamentos e das qualidades primárias quentes, frias, úmidas e secas, forneceu à alquimia medieval uma das bases filosóficas mais sólidas que ela jamais teve. Os alquimistas utilizavam o sistema aviceniano de qualidades para explicar as transformações da matéria, mesmo enquanto rejeitavam o ceticismo transmutacional do próprio Avicena.
Isso revela algo importante sobre como o conhecimento se propaga, ele raramente chega ao destino na forma em que partiu. As ideias de Avicena sobre a natureza das substâncias foram adotadas pela alquimia exatamente nas partes que ele poderia ter aprovado, a organização sistemática das qualidades materiais, e combinadas com uma prática que ele explicitamente rejeitava. A transmissão intelectual é sempre um processo de seleção e reinterpretação.
Uma vida entre a glória e a perseguição
A biografia externa de Avicena é uma sucessão de contrastes que tornaria qualquer romancista invejoso. Depois dos anos em Bukhara, com a queda da dinastia Samânida para os turcos Ghaznavidas, ele partiu numa peregrinação forçada que durou décadas, passando de corte em corte através da Pérsia, sempre alternando períodos de estabilidade e produção intelectual intensa com episódios de fuga, prisão e instabilidade política.
Em Hamadã, atual Irã, chegou a ser vizir, o equivalente a primeiro-ministro, do emir local. Administrava assuntos de estado durante o dia e escrevia filosofia à noite, frequentemente, segundo seus próprios relatos, com uma taça de vinho ao lado para manter o espírito ágil. Quando o emir morreu e as forças militares se voltaram contra o governo civil, Avicena foi preso e passou vários meses numa fortaleza. Não parou de escrever durante o cativeiro.
Há relatos de que durante suas viagens ele compunha versos, tocava alaúde e participava de festas com um prazer de viver que seus biógrafos mais austeros sempre encontraram difícil de reconciliar com a imagem do sábio ascético. Avicena parecia genuinamente acreditar que uma vida intelectual plena não precisava ser uma vida mortificada, e essa postura deixou marcas em sua filosofia sobre a relação entre corpo e alma.
Morreu em 1037, com aproximadamente cinquenta e sete anos, em Hamadã, durante uma campanha militar do emir que ele servia. As circunstâncias exatas são debatidas, mas há indícios de que sua saúde havia se deteriorado por excesso de trabalho e por um tratamento médico que ele próprio aplicou a si mesmo de maneira inadequada, numa ironia que não escapou aos seus biógrafos.
A travessia para o Ocidente
A influência de Avicena sobre a medicina europeia foi maciça e direta. O Cânon da Medicina foi traduzido para o latim no século XII por Gerardo de Cremona, em Toledo, e entrou imediatamente nos currículos das universidades europeias recém-fundadas. Por mais de quinhentos anos, de Bolonha a Paris e de Oxford a Salamanca, o Cânon foi o principal texto de ensino médico do mundo ocidental, ao lado das obras de Galeno que ele próprio havia sistematizado.
Essa presença duradoura no ensino europeu significa que praticamente todo médico formado na Europa entre o século XIII e o século XVII aprendeu medicina através de um filtro aviceniano. Quando Paracelso queimou os livros de Galeno em Basileia em 1527, estava queimando também, indiretamente, os livros de Avicena, porque a versão de Galeno que o Renascimento conhecia havia chegado filtrada pela síntese que Ibn Sina havia construído quatrocentos anos antes.
Dante Alighieri colocou Avicena no Inferno, no primeiro círculo, reservado aos grandes pagãos virtuosos que viveram antes do Cristianismo ou fora dele. Estar no Inferno de Dante era, paradoxalmente, uma forma de honra, porque o poeta reuniu ali Homero, Aristóteles, Platão, Sócrates e Averróis, os maiores intelectuais da história humana segundo o entendimento medieval. Avicena estava em boa companhia.
A pergunta que ele fez e que ainda não foi respondida
Entre todos os problemas filosóficos que Avicena abordou, o da relação entre a alma e o corpo é aquele que mais diretamente atravessa os séculos e chega vivo ao presente. O argumento do Homem Voador não era apenas um exercício lógico. Era uma pergunta sobre o que somos quando tiramos tudo o que nos foi dado, o corpo, os sentidos, as memórias acumuladas pelas experiências. O que resta quando se remove a camada física da existência?
Avicena respondia que resta uma consciência que se reconhece a si mesma, e que essa consciência é distinta do corpo que a abriga. A medicina trata do corpo. A filosofia trata da consciência. As duas disciplinas são necessárias e distintas, e confundi-las empobrece as duas. Essa separação metodológica entre o que a ciência pode medir e o que a experiência subjetiva revela é um problema que a neurociência, a psicologia e a filosofia da mente debatem com uma urgência crescente no século XXI.
Um médico persa do século X, escrevendo à luz de uma vela numa fortaleza onde estava preso por razões políticas, formulou essa questão com uma precisão que ainda não encontrou resposta definitiva. Isso diz algo sobre a natureza das perguntas verdadeiramente importantes, elas não envelhecem porque não podem ser encerradas com os instrumentos disponíveis em nenhuma época particular. Elas só podem ser herdadas, reformuladas e levadas adiante por quem tiver coragem de não se satisfazer com as respostas que já existem.