alquimia da alma

A Ética e a Pergunta sobre Como Viver que Nenhuma Resposta Conseguiu Fechar

A pergunta que origina a ética é simples o suficiente para que uma criança a formule e complexa o suficiente para que dois milênios de filosofia não a tenham respondido de maneira que todos aceitem. Como se deve viver? O que torna uma ação boa ou má? O que é uma pessoa virtuosa? Essas perguntas aparecem em toda cultura humana documentada, o que sugere que respondem a uma necessidade que não é filosófica antes de ser humana, a necessidade de orientar a conduta num mundo em que as escolhas têm consequências reais para si mesmo e para os outros. A filosofia não inventou a ética, ela encontrou a ética já instalada na vida prática e decidiu examiná-la com a mesma seriedade com que examina a natureza do conhecimento ou a estrutura do cosmos.
kybalion-filosofia-etica

A palavra vem do grego ethos, que significa caráter ou costume, e que Aristóteles usou deliberadamente para nomear a disciplina que investiga a excelência do caráter humano. O latim posterior produziu mores, de onde veio moral, com uma ênfase ligeiramente diferente, mais nos costumes sociais e nas normas coletivas do que no caráter individual. A distinção entre ética e moral que os filósofos contemporâneos frequentemente fazem, reservando a primeira para a reflexão filosófica sobre o bem e a segunda para os códigos normativos de uma cultura específica, não estava assim tão nitidamente traçada na Antiguidade, mas a tensão entre o caráter pessoal e a norma social que ela captura atravessa toda a história da disciplina. Sócrates morreu precisamente nessa tensão, convicto de que seu daimon interior lhe ordenava algo que a cidade julgava criminoso.

O Problema do Bem e as Primeiras Respostas Gregas

Os pré-socráticos raramente se ocuparam da ética de forma sistemática, absorvidos que estavam pela questão cosmológica de qual é a substância fundamental de que tudo é feito. Mas a questão ética estava implícita nas suas cosmologias, porque um cosmos que opera segundo o Logos, como Heráclito afirmava, é um cosmos em que a razão humana tem uma relação privilegiada com a ordem das coisas, e essa relação tem implicações para a conduta. Heráclito escreveu que o caráter é o destino do homem, sentença que os estoicos citariam séculos depois como prefiguração de suas próprias posições, e que permanece como uma das formulações mais densas da conexão entre quem se é e o que acontece a alguém.

Foi Sócrates quem colocou a ética no centro da filosofia, declarando que a única questão verdadeiramente importante era como se deve viver e que o exame dessa questão era mais valioso do que qualquer riqueza ou posição. Platão herdou essa prioridade e a desenvolveu numa teoria em que o bem humano está ancorado numa realidade que transcende o mundo sensível, a Forma do Bem, que ilumina todas as outras formas como o sol ilumina todos os objetos visíveis. Conhecer o bem, para Platão, era o mesmo que fazê-lo, o que significava que o mal resultava sempre de ignorância e que a educação filosófica era a única forma genuína de reforma moral. A debilidade dessa posição ficou clara para Aristóteles, que conhecia pessoas perfeitamente capazes de saber o que deveriam fazer e de fazer o contrário, um fenômeno que ele chamou de akrasia, fraqueza de vontade, e que Platão tinha dificuldade em explicar.

A Virtude como Florescimento e a Revolução Aristotélica

Aristóteles reconstruiu a ética a partir de uma pergunta diferente da platônica. Em vez de perguntar o que é o bem em si mesmo, ele perguntou o que é o bem para os seres humanos, e respondeu que é a eudaimonia, palavra que se traduz precariamente como felicidade mas que significa algo mais próximo de florescimento ou de vida que vai bem em sentido profundo. A eudaimonia aristotélica não é um estado subjetivo de prazer, é uma atividade, a atividade de exercer plenamente as capacidades que são próprias dos seres humanos enquanto seres racionais e sociais.

Para Aristóteles, a virtude é o que permite esse exercício pleno. As virtudes são disposições estáveis de caráter que se situam num meio-termo entre dois extremos viciosos, a coragem entre a covardia e a temeridade, a generosidade entre a avareza e a prodigalidade, a justa indignação entre a insensibilidade e a inveja. E as virtudes se adquirem pelo hábito, tornando-se corajoso ao agir corajosamente, generoso ao agir generosamente, até que a disposição se instale no caráter e a ação virtuosa passe a fluir naturalmente, sem esforço deliberado a cada vez. Esse modelo de ética como cultivo do caráter ao longo do tempo teve uma influência que ultrapassa qualquer outro sistema ético da Antiguidade, e continua sendo o ponto de partida da ética das virtudes que voltou ao centro do debate filosófico contemporâneo na segunda metade do século XX.

A Ética Estoica e o Bem que Nada Pode Tirar

O estoicismo reformulou a questão ética com uma radicalidade que surpreende até hoje. Para os estoicos, a virtude é o único bem real, e tudo o que não é virtude, riqueza, saúde, reputação, prazer, vida longa, são indiferentes, coisas que podem ser preferidas ou rejeitadas segundo as circunstâncias mas que não têm valor moral em si mesmas. Essa posição, que soava como paradoxo para os contemporâneos e como excentricidade para os modernos, nascia de uma análise rigorosa do que pode ser chamado de bem sem qualificação. A riqueza pode ser usada para o bem ou para o mal, a saúde pode ser empregada em favor ou contra a virtude, mas a virtude em si sempre contribui para o florescimento humano e nunca pode ser instrumento do mal. Portanto, apenas a virtude é bem sem qualificação.

As consequências práticas dessa posição eram exigentes. O estoico Epiteto, escravo que se tornou filósofo e fundou uma escola em Nicópolis, ensinava que a divisão fundamental da realidade é entre o que depende de nós, nossas opiniões, impulsos, desejos e aversões, e o que não depende de nós, o corpo, a reputação, os cargos e tudo o mais. A sabedoria consiste em concentrar toda a energia moral no primeiro domínio e em receber o segundo com indiferença treinada. Quando Marco Aurélio escrevia para si mesmo, nas Meditações, que nenhum mal externo pode ferir o que há de mais essencial em alguém, estava aplicando esse princípio à vida de um imperador que governava o maior estado do mundo ocidental e que escolhia viver filosoficamente dentro de uma posição que filosoficamente deveria ser indiferente. A tensão era real, e as Meditações são o registro de alguém trabalhando essa tensão com honestidade que beira a crueldade consigo mesmo.

O estoicismo produziu também uma das formulações mais influentes da ideia de lei natural, a tese de que existe uma ordem racional que governa o cosmos e que a razão humana pode reconhecer e seguir. Agir eticamente é agir em conformidade com essa ordem, o que significa que a ética não é uma convenção arbitrária mas uma realidade inscrita na estrutura do mundo. Essa ideia, que Cícero transmitiu ao latim com uma clareza que tornaria sua formulação canônica por séculos, alimentou o direito natural romano, a teologia moral medieval e as declarações de direitos do século XVIII, numa cadeia de influência que atravessa toda a história política ocidental sem que os atores políticos que invocavam a lei natural soubessem sempre que estavam citando Zenão de Cítio.

A Ética no Interior da Tradição Hermética e Alquímica

A tradição hermética e a alquimia que dela derivou não são sistemas éticos no sentido em que a filosofia acadêmica usa o termo, mas possuem uma dimensão moral tão central que ignorá-la significa entender mal o que essas tradições pretendiam fazer. O Corpus Hermeticum, redigido entre os séculos I e III d.C. e atribuído ao lendário Hermes Trismegisto, descreve um caminho de conhecimento que é simultaneamente um caminho de purificação moral. O nous, a inteligência divina que permeia o cosmos, só pode ser reconhecido por uma consciência que se purificou dos vícios que obscurecem sua percepção, e essa purificação é tanto intelectual quanto ética, a separação entre o que é essencial e o que é acessório na vida humana.

A alquimia traduziu esse processo em linguagem operativa. A Grande Obra, Magnum Opus, a transmutação do chumbo em ouro, era interpretada pelos alquimistas mais sofisticados como uma metáfora do processo de transformação interior pelo qual a consciência não trabalhada, pesada, opaca, presa às identificações materiais, é progressivamente refinada até atingir a qualidade que o ouro representava, a transparência, a incorruptibilidade, a capacidade de refletir a luz sem distorção. Paracelso, que no século XVI sistematizou boa parte do saber alquímico renascentista, escreveu que o alquimista que trabalha apenas com metais físicos sem compreender a dimensão interior do processo é como um músico que conhece as notas mas ignora a música. A ética da Grande Obra era a ética da transmutação, a ideia de que o conhecimento verdadeiro da natureza e o aperfeiçoamento moral do praticante são aspectos inseparáveis do mesmo processo.

Essa concepção tem uma genealogia filosófica rastreável. O hermetismo absorveu do platonismo a ideia de que conhecer o bem e tornar-se bom são o mesmo movimento. Absorveu do estoicismo a ideia de que o cosmos é uma totalidade racional e que alinhar-se com sua ordem é o fundamento da vida ética. E acrescentou a essas heranças uma dimensão cosmológica e operativa que a filosofia académica tendia a separar da ética, a ideia de que a transformação moral do indivíduo ressoa no cosmos e que o cosmos, por sua vez, oferece ao praticante instrumentos para essa transformação que a filosofia puramente verbal não pode fornecer.

A Fratura Moderna e a Multiplicação dos Sistemas

A modernidade fragmentou o consenso ético antigo e medieval de formas que o debate contemporâneo ainda não resolveu. Kant, no século XVIII, reconstruiu a ética sobre o princípio de que a moralidade deve ser fundada na razão pura, independentemente de qualquer consequência ou inclinação natural. O imperativo categórico, a exigência de agir apenas segundo máximas que se possa querer que se tornem leis universais, pretendia fornecer um critério formal de moralidade que não dependesse de nenhum conteúdo particular, de nenhuma visão de bem humano, de nenhuma cosmologia. A grandeza do projeto kantiano é sua tentativa de fundar a ética em algo que não pode ser contestado sem contradição. A debilidade é que um critério puramente formal produz orientações muito gerais e às vezes conflitantes quando aplicado a situações concretas.

O utilitarismo de Bentham e Mill propôs o critério oposto, a maximização do bem-estar ou da felicidade do maior número possível de pessoas. A ética deixa de ser questão de caráter ou de conformidade com princípios formais e passa a ser questão de cálculo de consequências. O problema imediato é que o cálculo de consequências exige comparar unidades de felicidade que não são diretamente comparáveis, e que pode justificar ações que violam intuições morais muito profundas, como sacrificar um inocente para salvar muitos, desde que os números funcionem. A história do século XX forneceu experimentos práticos de política utilitária que tornaram muita gente desconfiada do critério consequencialista como fundamento exclusivo da ética.

A segunda metade do século XX assistiu ao retorno da ética das virtudes aristotélica, em grande parte através do trabalho de Alasdair MacIntyre, que em Depois da Virtude, publicado em 1981, argumentou que o projeto moderno de fundar a ética em princípios abstratos havia fracassado porque havia abandonado o conceito de natureza humana como teleologia, a ideia de que os seres humanos têm uma forma de florescimento que é a sua, e que a ética consiste em cultivar as disposições que permitem alcançá-la. O retorno a Aristóteles que MacIntyre propunha não era nostalgia, era um diagnóstico de que a modernidade havia tentado fazer ética sem ontologia, sem uma visão de o que é o ser humano e para que tende quando vai bem, e que o resultado havia sido o impasse moral que caracteriza as sociedades pluralistas contemporâneas.

O que a Persistência da Ética Revela sobre Quem Pergunta

Que a humanidade continue produzindo sistemas éticos sem que nenhum deles conquiste aceitação universal não é evidência de fracasso filosófico, é evidência da natureza do problema. A ética não é como a geometria, em que um sistema pode se tornar definitivo a ponto de tornar os anteriores obsoletos. Ela é o tipo de investigação em que cada resposta adequada levanta novas perguntas, em que o progresso consiste menos em resolver questões do que em formulá-las com mais precisão, e em que as soluções que funcionam para uma época ou cultura revelam suas insuficiências quando as circunstâncias mudam.

O estoicismo produziu uma ética que ajudou imperadores a governar com alguma consciência das suas responsabilidades e escravos a preservar a dignidade numa condição que a retirava sistematicamente. O aristotelismo produziu uma ética que estruturou o pensamento moral de dois milênios de mundo cristão e islâmico. O hermetismo e a alquimia produziram uma ética da transformação que insistia em que o aperfeiçoamento moral e o conhecimento da natureza são o mesmo processo. Cada um desses sistemas captou algo real sobre a condição humana que os outros deixaram de fora, e cada um pagou um preço por suas ênfases específicas.

A pergunta original, como se deve viver, permanece aberta não porque os filósofos tenham sido pouco inteligentes ou pouco rigorosos, mas porque é o tipo de pergunta que só pode ser respondida em primeira pessoa, no concreto de uma vida específica, com o conjunto de circunstâncias e capacidades que uma pessoa particular possui. A filosofia pode tornar essa resposta mais lúcida, pode revelar os pressupostos que a sustentam e os compromissos que ela exige, pode mostrar onde uma resposta é inconsistente ou onde ignora consequências importantes. Mas a resposta em si precisa ser vivida, e isso é uma tarefa que nenhum sistema pode executar em lugar de quem a enfrenta.

Compartilhe

Facebook
X
LinkedIn
WhatsApp
Telegram
Pinterest
Email
Imprimir
Foto de Hermes Fulcanelli

Hermes Fulcanelli

Inspirado pelas jornadas espirituais e físicas da alquimia, hermetismo e estoicismo, Hermes Fulcanelli conecta passado e presente por meio de suas profundas explorações em mitologia e espiritualidade, guiando seus pacientes e leitores em suas próprias viagens de autodescoberta e iluminação em ciência, filosofia e religião.
0 0 votos
Classificação do artigo
Inscrever-se
Notificar de
guest
0 Comentários
mais antigos
mais recentes Mais votado