O paradoxo de Sócrates é que quanto mais se tenta reduzi-lo a uma doutrina clara, mais ele escapa. Ele não tinha sistema. Não tinha respostas definitivas. Tinha um método, uma postura e uma convicção inabalável de que uma vida não examinada não merecia ser vivida. Isso foi suficiente para mudar o mundo e suficiente para irritar Atenas além do tolerável.
Um filho de parteira que aprendeu a fazer perguntas
Sócrates nasceu em Atenas por volta de 470 antes de Cristo, filho de Sofronisco, escultor ou pedreiro segundo as fontes, e de Fenarete, parteira. Essa origem modesta era incomum para quem se tornaria o símbolo da filosofia ocidental, e Sócrates a usava com frequência. Comparava seu próprio método ao trabalho da mãe: assim como a parteira não dá à luz por conta própria mas ajuda outros a dar, ele não gerava ideias nos interlocutores mas os ajudava a parir aquilo que já estava em gestação dentro deles. Esse método ficou conhecido como maiêutica, do grego para arte da parturição, e é uma das contribuições mais duradouras de Sócrates à pedagogia e à filosofia.
Sobre sua juventude pouco se sabe com certeza. Há indícios de que trabalhou como escultor na juventude, e uma tradição antiga atribuía a ele a escultura das Três Graças que ficava na entrada da Acrópole, embora essa atribuição seja improvável de verificar. O que é certo é que, em determinado ponto de sua vida adulta, Sócrates abandonou qualquer atividade produtiva no sentido convencional e se dedicou integralmente à filosofia, vivendo em condições de pobreza voluntária que escandalizavam os atenienses mais ricos e fascinavam os mais jovens.
Sua aparência era objeto de comentário constante na Atenas antiga. Sócrates era feio de maneira quase programática, com nariz achatado, olhos saltados, lábios grossos e barriga proeminente, uma combinação que seus contemporâneos descreviam como assemelhada a um sileno, as criaturas mitológicas meio humanas meio animais associadas ao cortejo de Dionísio. Ele parecia se divertir com isso, usando a própria aparência como argumento filosófico sobre a diferença entre a superfície visível das coisas e o que elas realmente são por dentro.
O oráculo que declarou um homem o mais sábio da Grécia
A vida pública de Sócrates como filósofo começa, segundo o relato que ele mesmo deu em seu julgamento, com uma visita que um amigo chamado Querofonte fez ao Oráculo de Delfos. Querofonte perguntou ao oráculo se havia alguém mais sábio do que Sócrates, e o oráculo respondeu que não havia. A resposta perturbou profundamente Sócrates, que julgava não ter qualquer sabedoria especial, e ele decidiu investigar o assunto da única maneira que conhecia, perguntando.
Começou a abordar sistematicamente os homens de Atenas que gozavam de reputação de sabedoria, políticos, artesãos, poetas, generais. Com cada um deles fazia o mesmo, conduzia um diálogo que começava com aparente deferência e terminava com o interlocutor incapaz de sustentar os próprios argumentos. A conclusão que Sócrates tirou desse experimento foi que o oráculo havia dito a verdade de uma maneira que precisava ser interpretada. Ele não era sábio porque sabia mais do que os outros. Era o mais sábio porque era o único que sabia que não sabia nada, enquanto os outros não sabiam e acreditavam saber.
Essa formulação, saber que não se sabe, parece simples mas suas implicações são radicais. Ela coloca a consciência da própria ignorância como condição de possibilidade do conhecimento genuíno. Quem acredita que já sabe não faz perguntas. Quem não faz perguntas não aprende. Quem não aprende permanece preso nas certezas herdadas, nas opiniões recebidas, nas respostas que a tradição fornece sem que ninguém as questione. Sócrates via esse estado como uma forma de sono intelectual e moral do qual a filosofia era o único despertar possível.
O método que incomodava e por quê
O método socrático funciona de uma maneira que é ao mesmo tempo sedutora e perturbadora. Começa com uma pergunta aparentemente simples sobre um conceito que todos acreditam entender. O que é a coragem? O que é a justiça? O que é a piedade? O que é o amor? O interlocutor responde com a definição que lhe parece óbvia. Sócrates aceita a resposta com cortesia e imediatamente propõe um caso concreto que a contradiz ou complica. O interlocutor reformula. Sócrates encontra outro caso. A reformulação é refinada. Uma nova dificuldade aparece. O processo se repete até que o interlocutor percebe que não sabe o que pensava saber, ou desiste frustrado, ou tem uma intuição genuína de algo mais profundo.
Os diálogos de Platão são a principal fonte para compreender esse método em ação, e eles mostram um Sócrates que raramente chega a conclusões definitivas. A maioria dos primeiros diálogos platônicos, os chamados diálogos socráticos ou aporéticos, termina em aporia, palavra grega que significa literalmente falta de caminho, uma situação de impasse em que a questão foi examinada até seus limites sem que uma resposta satisfatória tenha sido alcançada. Isso pode parecer um fracasso, mas para Sócrates era o ponto, o reconhecimento da complexidade real de um problema era mais honesto e mais valioso do que a confiança falsa numa solução superficial.
O problema era que esse método funcionava havendo plateia. Sócrates conduzia suas conversas em lugares públicos, nas praças, nos ginásios, nos pórticos. Jovens atenienses o seguiam e assistiam aos diálogos com o mesmo prazer com que assistiriam a um combate atlético ou a um espetáculo teatral. Ver um político famoso, um general respeitado ou um poeta celebrado ser progressivamente desmantelado pela lógica de um homem descalço e mal vestido era ao mesmo tempo divertido e perturbador. Divertido para os jovens. Perturbador para os desmantelados.
Soldado, cidadão e filósofo
Uma das imagens equivocadas que circula sobre Sócrates é a do intelectual descolado da realidade prática, vivendo exclusivamente no reino das ideias. A realidade foi diferente. Sócrates serviu como soldado ateniense em pelo menos três campanhas militares e foi reconhecido por um comportamento de coragem fora do comum em pelo menos uma delas, a batalha de Potideia em 432 antes de Cristo, onde salvou a vida de Alcibíades, o brilhante e destrutivo político que seria um dos personagens centrais das guerras do Peloponeso.
Em Potideia, durante um retiro do exército no frio intenso do norte da Grécia, os soldados ficavam impressionados com a capacidade de Sócrates de suportar temperaturas que outros não aguentavam, andando descalço na neve enquanto todos os outros enrolavam os pés em peles e panos. Um episódio narrado no Banquete de Platão descreve Sócrates parado imóvel por um dia e uma noite inteiros na mesma posição, ao ar livre, aparentemente em estado de contemplação profunda, enquanto os outros soldados formavam um círculo ao redor dele por curiosidade, esperando ver o que aconteceria quando o sol nascesse.
Sua participação na vida cívica de Atenas também foi concreta. Em 406 antes de Cristo, quando foi sorteado para o Conselho dos Quinhentos e se viu presidindo a assembleia no momento em que ela votava por condenar coletivamente os generais da batalha de Arginusas sem que cada um fosse julgado individualmente, Sócrates foi o único a se recusar a presidir o voto, argumentando que o procedimento era ilegal. A multidão gritava. As ameaças eram explícitas. Sócrates não cedeu. Era um homem que aplicava seus princípios não apenas nos diálogos mas nos momentos em que custava algo fazê-lo.
Alcibíades e o problema do discípulo que destruiu tudo
O caso Alcibíades é um dos aspectos mais dolorosos e mais instrutivos da vida de Sócrates, e foi usado em seu julgamento como prova de que ele havia corrompido a juventude de Atenas. Alcibíades era o jovem mais brilhante, mais belo e mais perigoso de sua geração, um político e general de talento extraordinário cujo narcisismo e ambivalência moral o levaram a trair Atenas para Esparta, depois Esparta para a Pérsia e depois tentar voltar para Atenas novamente, deixando um rastro de catástrofes políticas e militares que contribuiu significativamente para a derrota ateniense na Guerra do Peloponeso.
Sócrates havia sido um de seus mentores, e isso pesou. Se o filósofo ensinava o questionamento de todas as normas e convenções, e se um de seus discípulos mais próximos havia destruído a democracia ateniense de dentro, não era razoável estabelecer uma conexão? Essa era a lógica dos acusadores, e ela tinha uma aparência de plausibilidade que tornava a defesa difícil.
O problema era que Sócrates não havia ensinado Alcibíades a trair. Havia ensinado a pensar com mais clareza. O que Alcibíades fez com esse pensamento mais claro foi uma escolha pessoal que revelava precisamente a limitação do método socrático: ele podia produzir intelectos mais aguçados sem necessariamente produzir homens mais virtuosos. Sócrates sabia disso melhor do que ninguém. A relação entre conhecimento e virtude era exatamente o problema filosófico mais difícil de sua vida.
O julgamento e a escolha que ninguém precisava fazer
Em 399 antes de Cristo, Sócrates foi formalmente acusado por três cidadãos atenienses, Meleto, um poeta menor, Anito, um curtidor e influente político democrata, e Lícon, um orador. As acusações eram impierdade, por não reconhecer os deuses da cidade e introduzir novas divindades, e corrupção da juventude ateniense. O tribunal era composto por quinhentos jurados sorteados entre cidadãos atenienses.
Platão registrou a defesa de Sócrates no texto que chamou de Apologia, palavra grega que significa simplesmente defesa, não pedido de desculpas. O que Platão descreve, independentemente de qual seja a fidelidade exata à versão histórica, é uma defesa que não era realmente uma defesa no sentido de tentativa de absolvição. Era uma afirmação filosófica sobre o valor da vida que Sócrates havia escolhido viver.
Ele poderia ter proposto o exílio como pena alternativa, e provavelmente teria sido aceito. Em vez disso, propôs ser alimentado às custas do Estado no Pritaneu, a refeição honorífica reservada a campeões olímpicos e benfeitores da cidade. O humor seco e a recusa em realizar a performance habitual de auto-humilhação esperada de um réu irritou jurados suficientes para transformar uma votação inicialmente próxima numa condenação por maioria mais confortável.
Depois da condenação, quando amigos organizaram uma fuga, Sócrates recusou. O diálogo que Platão escreveu sobre esse momento, o Críton, apresenta Sócrates argumentando que fugir seria uma violação do contrato implícito com as leis de Atenas sob as quais havia vivido a vida inteira. Concordar com as leis quando elas te favorecem e violá-las quando se tornam inconvenientes era, para ele, uma incoerência moral inaceitável. Preferia morrer a viver de uma maneira que contradissesse os princípios pelos quais havia argumentado durante décadas.
Morreu tomando cicuta, provavelmente no final de maio de 399 antes de Cristo. O Fédon de Platão descreve suas últimas horas, rodeado de discípulos em prantos, Sócrates conversando calmamente sobre a imortalidade da alma até o momento em que o veneno tomou efeito. Suas últimas palavras, segundo Platão, foram um pedido para que alguém oferecesse um galo a Asclépio, o deus da medicina, como pagamento por uma dívida. Uma interpretação sugere que ele considerava a morte uma cura para a doença que é a vida. Outra que estava simplesmente sendo cuidadoso com suas obrigações religiosas até o fim. A ambiguidade parece intencional.
O problema do Sócrates histórico
Uma das maiores dificuldades em estudar Sócrates é que ele nunca escreveu nada. Tudo que sabemos sobre ele vem de fontes secundárias, e as principais são problemáticas de maneiras diferentes. Platão foi seu discípulo mais brilhante e mais apaixonado, o que o torna uma fonte riquíssima e ao mesmo tempo suspeita. Nos diálogos mais tardios, é impossível determinar onde termina o Sócrates histórico e começa o porta-voz das ideias do próprio Platão. O Sócrates da República, que descreve a teoria das Formas e o filósofo-rei, é plausivelmente mais platônico do que socrático.
Xenofonte, outro discípulo, escreveu sobre Sócrates com uma prosa mais simples e uma visão mais mundana, apresentando um filósofo mais prático, menos abstraído, mais preocupado com virtudes cívicas concretas do que com metafísica. Aristófanes, o comediógrafo, o satirizou em sua peça As Nuvens como um sofista charlatão que ensinava jovens a enganar os pais com argumentos falaciosos, uma imagem que provavelmente contribuiu para o clima que tornou o julgamento possível.
Esses três retratos não se contradizem completamente, mas também não se sobrepõem com perfeição. O resultado é que o Sócrates histórico permanece parcialmente inacessível por trás de seus intérpretes, o que é, de certa forma, poeticamente adequado para um filósofo cujo método consistia em revelar que as certezas são sempre mais frágeis do que parecem.
A influência que ainda não acabou
A morte de Sócrates produziu algo que seus executores certamente não pretendiam, transformou o filósofo num mártir intelectual cuja influência se multiplicou exponencialmente depois de sua morte. Platão, que tinha por volta de vinte e oito anos quando o mestre morreu e nunca se recuperou completamente do choque, fundou a Academia, a primeira instituição de ensino filosófico sistemático do mundo ocidental, e passou décadas elaborando as ideias socráticas em sistemas filosóficos de alcance extraordinário.
Aristóteles estudou com Platão e construiu sobre as fundações socráticas o edifício filosófico mais ambicioso da Antiguidade, que abarcou lógica, biologia, física, ética, política e metafísica. A escolástica medieval cristã, que dominou o pensamento europeu por séculos, era em grande parte aristotélica, o que significa que era indiretamente socrática. A tradição filosófica islâmica que preservou e desenvolveu o conhecimento grego durante a Idade Média europeia bebeu das mesmas fontes.
Mais diretamente, a maneira como Sócrates entendia a relação entre pensamento e responsabilidade moral influenciou todos os que depois dele argumentaram que a razão não é um instrumento neutro mas uma faculdade que, quando exercida com honestidade, necessariamente conduz a compromissos éticos. Kant, que construiu no século XVIII uma das éticas mais rigorosas da história da filosofia, estava num diálogo implícito com Sócrates ao argumentar que a moralidade deriva da razão e não da emoção ou da tradição.
Hannah Arendt, escrevendo no século XX sobre o problema do mal após o Holocausto, identificou em Adolf Eichmann não um monstro mas um burocrata sem pensamento, alguém que havia executado atrocidades precisamente porque havia abdicado da capacidade de pensar criticamente sobre suas próprias ações. A solução que Arendt propunha tinha um nome explícito, pensamento socrático, a disposição de examinar as próprias premissas sem parar, de não aceitar ordens ou convenções como substitutas do julgamento moral pessoal.
O homem que não tinha respostas e isso era o suficiente
O que torna Sócrates permanentemente relevante não é nenhuma doutrina específica, nenhuma teoria sobre a natureza da realidade, nenhum sistema político ou metafísico. É a postura. A recusa em aceitar que qualquer autoridade, seja ela religiosa, política ou intelectual, possa substituir o esforço pessoal de examinar o que se acredita e por quê.
Numa época em que algoritmos decidem o que as pessoas veem, em que opiniões são formadas por exposição repetida a informações selecionadas e em que a pressão social para conformidade com narrativas de grupo é mais intensa do que nunca, o convite socrático a examinar a própria vida tem uma urgência que não existia nem mesmo em Atenas. A diferença é que Atenas tinha pelo menos praças públicas onde o exame podia acontecer em voz alta, entre pessoas que discordavam entre si.
Sócrates não respondeu as perguntas que fez. Mas ensinou que a disposição de fazê-las, de suportar o desconforto de não saber, de resistir à tentação das certezas fáceis, é o que distingue uma existência consciente de uma existência apenas vivida por hábito. Atenas o matou por isso. A história lhe deu razão, o que é a única forma de justiça que o tempo é capaz de oferecer.