As versões divergem nos detalhes. Algumas dizem que jogou o dinheiro ao mar. Outras que o distribuiu entre os cidadãos de Tebas. Outras ainda que pagou a um banqueiro para guardá-lo com a instrução de entregá-lo aos filhos apenas se eles nunca se tornassem filósofos, pois se se tornassem filósofos não precisariam de dinheiro algum. O que todas as versões concordam é que Crates abriu mão voluntariamente de tudo que a sociedade de seu tempo considerava o fundamento de uma vida boa, e que fez isso não por desespero nem por loucura, mas por convicção filosófica tão clara que nenhum arrependimento posterior é registrado em qualquer fonte.
O homem que fez essa escolha se tornaria professor de Zenão de Cítio, o fundador do estoicismo, e assim um dos elos mais importantes na cadeia de transmissão que conecta o cinismo grego à filosofia que governou o pensamento ético do Império Romano por séculos e que ainda hoje figura entre as correntes filosóficas mais lidas e aplicadas do mundo.
Tebas, a riqueza e o encontro que mudou tudo
Crates nasceu em Tebas por volta de 365 antes de Cristo, numa família de posses consideráveis. Tebas era naquele momento uma cidade em transição, havia dominado militarmente toda a Grécia por um breve período sob a liderança do general Epaminondas, mas esse momento de supremacia havia passado, e a cidade navegava entre a memória da grandeza recente e a pressão crescente da Macedônia ao norte. Era um ambiente de aristocracia estabelecida, de valores convencionais sobre honra, riqueza e posição social, de expectativas claras sobre o que um jovem bem-nascido deveria querer da vida.
Crates queria outra coisa, embora talvez não soubesse exatamente o quê até encontrar o pensamento de Diógenes. O encontro com o cinismo pode ter ocorrido através de textos ou através do contato direto com o próprio Diógenes, que viveu em Atenas e em Corinto durante o período em que Crates era jovem adulto. A tradição filosófica o lista como discípulo direto de Diógenes, o que tornaria o encontro pessoal provável, mas os detalhes biográficos da filosofia antiga são frequentemente imprecisos o suficiente para que a certeza seja impossível.
O que é certo é que Crates encontrou no cinismo uma resposta para algo que o incomodava na vida que havia herdado. A riqueza não era apenas uma questão de conforto material. Era um conjunto de obrigações, expectativas e dependências que determinavam o que se podia pensar, dizer e fazer. Ser rico em Tebas significava ter uma posição a defender, uma reputação a preservar e interesses a proteger. Significava que certas perguntas não deviam ser feitas em voz alta porque poderiam custar caro. Significava que a liberdade de pensamento tinha um preço social que poucos estavam dispostos a pagar.
Crates pagou o preço antecipadamente, descartando o que tornava a pergunta cara.
O que é um filósofo cínico e por que isso importa
Para entender Crates é preciso entender o cinismo, não no sentido moderno da palavra, que carrega a conotação de descrença irônica e distanciamento mordaz, mas no sentido filosófico original, que era algo simultaneamente mais radical e mais sério do que qualquer descrença irônica contemporânea.
O cinismo foi fundado por Antístenes, discípulo de Sócrates, e levado às suas consequências mais extremas por Diógenes de Sinope, o homem que morava numa jarra na praça pública de Atenas e que, quando Alexandre Magno se ofereceu para conceder qualquer desejo, pediu apenas que saísse da frente do sol. O nome da escola filosófica deriva provavelmente de Cinosargo, o ginásio de Atenas onde Antístenes ensinava, embora a palavra grega kyon, que significa cão, também tenha desempenhado um papel no nome, pois os cínicos abraçavam a comparação com os cães como elogio, viviam segundo a natureza, sem vergonha, sem pretensão e sem as convenções artificiais que os humanos chamam de civilização.
O princípio central do cinismo era a autarquia, a autossuficiência radical. A felicidade não dependia de riqueza, posição social, reputação, saúde ou qualquer circunstância exterior. Dependia exclusivamente da virtude, entendida como o alinhamento entre pensamento, caráter e ação, e a virtude era algo que nenhuma circunstância externa podia dar ou tirar. Um escravo virtuoso era mais livre do que um rei vicioso. Um mendigo que pensava com clareza era mais rico do que um banqueiro que se deixava governar pelos desejos e pelos medos.
Para viver de acordo com esse princípio, os cínicos praticavam uma askesis, um treinamento deliberado de desprendimento que envolvia reduzir ao mínimo as necessidades materiais, suportar desconfortos físicos sem reclamar, ignorar as opiniões alheias e dizer a verdade em qualquer circunstância, independentemente de quanto isso custasse em termos de aceitação social. Era uma filosofia de choque, projetada para perturbar a zona de conforto intelectual e moral das pessoas ao redor.
A vida na rua e o saco às costas
Depois de abrir mão da fortuna, Crates adotou o estilo de vida cínico com uma consistência que as fontes antigas registram com detalhes suficientes para construir uma imagem bastante vívida. Vestia um manto duplo que servia de roupa durante o dia e de cobertor durante a noite. Carregava um saco às costas com seus pertences mínimos, pão, figos secos e o essencial para a sobrevivência. Andava descalço pelas ruas de Atenas, onde passou a maior parte de sua vida filosófica depois de deixar Tebas.
Mas Crates não era Diógenes. Onde Diógenes era agressivo, provocador e deliberadamente escandaloso, Crates era amável. Onde Diógenes usava o cinismo como instrumento de ataque às convenções sociais, Crates o usava como instrumento de aproximação humana. As fontes antigas o descrevem como um homem cuja presença era reconfortante, que entrava nas casas das pessoas sem ser convidado para ajudar a resolver conflitos familiares e era bem-vindo porque sua intervenção costumava funcionar.
Seu apelido em Atenas era Abridora de Portas, uma referência ao fato de que ele entrava em qualquer casa sem cerimônia para oferecer ajuda filosófica a quem precisasse. Isso era uma inversão deliberada do comportamento esperado de um filósofo, em vez de esperar que os discípulos viessem até ele, como Sócrates esperava na praça pública, Crates ia até as pessoas onde elas estavam. A filosofia era, para ele, uma prática de cuidado humano concreto, não um espetáculo intelectual.
Hipárquia e o casamento que escandalizou a Grécia
A história de amor de Crates e Hipárquia é uma das mais extraordinárias da filosofia antiga, não porque seja romanticamente dramática no sentido convencional, mas porque desafiou de maneira tão frontal as convenções de gênero da Grécia clássica que ainda surpreende relida dois mil e trezentos anos depois.
Hipárquia era irmã de Metrocles, jovem tebano que havia se tornado discípulo de Crates em Atenas. Ela conheceu o filósofo através do irmão e ficou tão impressionada com seu pensamento e com sua maneira de viver que decidiu que queria se casar com ele e adotar o estilo de vida cínico. Seus pais, que eram ricos e haviam prometido a filha a um partido muito mais convencional, opuseram-se com a intensidade que se esperaria de uma família aristocrática grega do século IV diante de semelhante proposta.
Hipárquia era inflexível. Ameaçou suicidar-se se não pudesse casar com Crates. Crates, num gesto que as fontes registram com evidente aprovação filosófica, colocou diante dela seu saco, seu manto e seus sandálias e disse que esses eram todos os seus bens, e que ela deveria considerar bem antes de escolher uma vida tão diferente de tudo que havia conhecido. Hipárquia não vacilou.
O casamento ocorreu. Os dois viveram juntos como filósofos cínicos, partilhando a mesma vida itinerante, o mesmo manto duplo, a mesma pobreza voluntária. Hipárquia participava dos simpósios filosóficos onde as mulheres normalmente não eram admitidas, engajava em debates com filósofos que tentavam intimidá-la com argumentos sobre o papel feminino e respondia com uma segurança intelectual que as fontes antigas registram com uma admiração que nem sempre conseguem esconder. Diógenes Laércio a inclui em suas Vidas dos Filósofos Ilustres como filósofa por direito próprio, não apenas como esposa de um filósofo, o que era incomum o suficiente para merecer atenção.
Havia um detalhe adicional que escandalizava os contemporâneos, o casal não ocultava sua vida íntima. Crates e Hipárquia viviam segundo o princípio cínico de que não há nada que um ser humano faça naturalmente que precise ser escondido, e aplicavam isso com uma consistência que os bem-pensantes atenienses achavam intoleravelmente perturbadora. Eram, nesse sentido, personagens radicais não apenas filosoficamente mas performaticamente, usando a própria vida como argumento contra a hipocrisia das convenções sociais.
O mestre que formou o fundador do estoicismo
A importância histórica de Crates transcende em muito sua própria escola filosófica. Seu papel mais consequente na história do pensamento ocidental foi o de professor de Zenão de Cítio, o jovem fenício que chegou a Atenas por volta de 312 antes de Cristo depois de um naufrágio que destruiu sua fortuna mercantil e que encontrou em Crates seu primeiro mestre filosófico.
Zenão chegou a Atenas não como aspirante a filósofo mas como comerciante arruinado em busca de orientação. Segundo a anedota que circulava na Antiguidade, ele consultou um oráculo sobre o que deveria fazer com sua vida e recebeu a instrução de conviver com os mortos. Interpretou isso como uma ordem para estudar os filósofos antigos. Entrou numa livraria, começou a ler a Apologia de Sócrates de Xenofonte e perguntou ao livreiro onde poderia encontrar homens como Sócrates. O livreiro apontou para Crates, que naquele momento passava pela rua.
Zenão estudou com Crates por vários anos e a influência foi profunda e duradoura. A ênfase cínica na virtude como único bem real, na autossuficiência como condição de liberdade genuína, no desprendimento em relação às circunstâncias externas e na vida segundo a natureza foram todos absorvidos por Zenão e transformados num sistema filosófico mais estruturado e socialmente palatável quando ele fundou sua própria escola no Pórtico Pintado de Atenas, o Stoa Poikilê, que deu nome ao estoicismo.
O estoicismo que Zenão fundou, e que foi desenvolvido por Cleanto, Crisipo, Epicteto, Marco Aurélio e Sêneca em gerações subsequentes, é uma das escolas filosóficas mais influentes da história humana. Moldou a ética do Império Romano, influenciou profundamente o pensamento cristão primitivo, ressurgiu no humanismo renascentista e voltou com força renovada no século XXI como filosofia prática de gestão emocional e liderança. Toda essa linhagem passa por Crates.
Sem o encontro entre o jovem Zenão arruinado e o filósofo descalço com o saco às costas nas ruas de Atenas, o estoicismo não teria a forma que teve, e o pensamento ético do mundo ocidental teria sido diferente de maneiras que é difícil calcular.
A poesia como filosofia
Uma das dimensões menos conhecidas de Crates é a de poeta. Ao contrário de Diógenes, que expressava seu pensamento principalmente em ações provocadoras e aforismos cortantes, Crates escreveu poemas, dos quais fragmentos sobreviveram, e esses fragmentos revelam um homem capaz de combinar o rigor filosófico cínico com um senso de humor suave e uma ternura genuína pela condição humana.
O mais famoso de seus poemas é uma paródia da Odisseia de Homero em que Crates descreve sua terra natal não como Ítaca, a ilha de Odisseu, mas como Pera, que em grego significa saco ou mochila. Sua Ítaca não é uma ilha com palácios e pretendentes, mas um território de valores invertidos em relação ao mundo convencional, onde a pobreza é riqueza, o desprendimento é poder e a filosofia é o único luxo que importa.
Escreveu também tragédias filosóficas que, segundo as fontes antigas, continham mais filosofia do que drama no sentido convencional, usando a forma teatral como veículo para reflexões sobre a natureza da liberdade, da necessidade e da felicidade humana. Nenhuma dessas obras sobreviveu integralmente, o que é uma das muitas perdas que a transmissão fragmentária da filosofia antiga nos impõe.
A combinação de poesia e filosofia em Crates não era ornamental. Refletia uma compreensão de que o pensamento filosófico precisa de formas de expressão que alcancem não apenas o intelecto mas a imaginação e a emoção, e que a arte pode fazer o que o argumento direto às vezes não consegue, criar em quem recebe a experiência de ver o mundo de um ângulo que não havia considerado antes.
A morte serena e o legado que ficou
Crates morreu provavelmente por volta de 285 antes de Cristo, com cerca de oitenta anos, se as datas de nascimento geralmente aceitas estiverem corretas. As fontes não registram nenhum drama em torno de sua morte, nenhum julgamento como o de Sócrates, nenhuma execução como a de outros filósofos que irritaram o poder estabelecido de forma mais direta. Ele simplesmente envelheceu e morreu, aparentemente com a mesma tranquilidade com que havia vivido.
Essa ausência de drama final é ela mesma filosoficamente significativa. Crates não precisava do martírio para autenticar sua filosofia porque havia autenticado a cada passo de sua vida, na escolha de abrir mão da fortuna, no casamento com Hipárquia, no modo de andar pelas ruas de Atenas entrando nas casas das pessoas para ajudá-las, na recusa consistente de qualquer conforto que não fosse estritamente necessário. A coerência entre o que pensava e o que vivia era a prova mais sólida possível de que levava a sério o que professava.
O legado de Crates se desdobra em pelo menos duas direções que chegam claramente ao presente. A primeira é o estoicismo, cuja linhagem passa diretamente por ele até Zenão e depois até Marco Aurélio, Epicteto e Sêneca, filósofos que ainda hoje figuram entre os mais lidos por pessoas que buscam uma filosofia prática para lidar com a adversidade, a perda e a incerteza. A segunda é o exemplo de vida como argumento filosófico, a ideia de que a coerência entre pensamento e ação é a única forma de honestidade intelectual que realmente conta.
Por que Crates importa quando tudo parece urgente
Vivemos num tempo que confunde posse com valor, visibilidade com importância e conforto com felicidade. Crates passou dois mil e trezentos anos sendo uma resposta incômoda a essa confusão. Não porque a pobreza seja virtuosa em si mesma, porque não é, mas porque a escolha deliberada de não deixar que os bens exteriores governem as decisões internas é uma forma de liberdade que a maioria das pessoas nunca experimenta, não porque seja impossível, mas porque nunca foi seriamente considerada.
Há algo perturbador e ao mesmo tempo libertador no gesto de Crates jogando sua fortuna ao mar. Perturbador porque desafia o que a maioria das pessoas organiza sua vida para conseguir. Libertador porque sugere que a prisão que mais pesa nunca é construída por outros, mas por nós mesmos, um bem de cada vez, uma preocupação de cada vez, uma expectativa social internalizada de cada vez.
Não é necessário imitar Crates literalmente para entender o que ele estava dizendo. É suficiente fazer a pergunta que ele fez e que poucos têm coragem de formular com honestidade, do que eu realmente preciso para pensar com clareza, agir com integridade e viver sem o medo constante de perder o que acumulei? A resposta, para a maioria das pessoas, é muito menos do que possuem e muito mais do que percebem ter.