alquimia da alma

Platão. O Homem que Inventou uma Forma de Pensar

Existe uma frase do filósofo Alfred North Whitehead que se tornou quase um clichê nos departamentos de filosofia, mas que resiste ao desgaste pela precisão com que captura algo real. Ele escreveu que toda a filosofia ocidental é uma série de notas de rodapé a Platão. A frase irrita alguns especialistas, entusiasma outros e confunde quem ainda não mergulhou no assunto. Mas há nela uma verdade que vai além da provocação acadêmica.
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Platão não foi apenas um filósofo entre outros. Foi o homem que estabeleceu as perguntas que a filosofia ocidental ainda está tentando responder. O que é a realidade? O conhecimento é possível? O que torna uma ação boa ou má? Como deveria ser organizada uma sociedade justa? Qual é a relação entre o que vemos e o que existe de fato? Essas não são perguntas que Platão inventou do nada, mas foi ele quem as formulou com uma clareza e uma profundidade que tornaram impossível ignorá-las. Dois mil e quatrocentos anos depois, filósofos, cientistas, teólogos e políticos continuam respondendo a ele, mesmo quando não sabem que é isso que estão fazendo.

O aristocrata que escolheu a filosofia

Platão nasceu por volta de 428 a.C. em Atenas, numa família da mais alta aristocracia ateniense. Seu nome de nascimento era Arístocles, e Platão era um apelido que, segundo algumas fontes antigas, fazia referência à sua compleição física robusta ou à largura de seus ombros. Seu pai, Ariston, reivindicava descendência de Codro, o último rei de Atenas. Sua mãe, Perictione, era parente de Crítias e Cármides, dois dos Trinta Tiranos que governaram Atenas brevemente após a derrota na Guerra do Peloponeso.

Essa origem importa porque Platão cresceu num ambiente em que a política era uma expectativa natural de carreira, não uma opção entre outras. Homens de sua classe governavam, participavam das assembleias e assumiam responsabilidades cívicas como parte de uma identidade que não se questionava. O fato de que ele escolheu a filosofia em vez da política não foi uma retirada do mundo, mas uma resposta específica a uma crise política e moral que viveu de perto e que o marcou de forma irreversível.

Essa crise tinha nome e rosto. Chamava-se Sócrates.

O trauma fundador

Platão tinha aproximadamente vinte anos quando começou a frequentar as conversas de Sócrates, o filho de parteira que andava descalço pelas ruas de Atenas fazendo perguntas incômodas a quem quisesse debater. Sócrates não escreveu nada. Não tinha escola formal, não cobrava pelos ensinamentos e não oferecia respostas prontas. Oferecia o método, o hábito de examinar as próprias crenças até que sua solidez ou sua fragilidade se revelasse.

Para Platão, jovem aristocrata acostumado a certezas de classe e perspectivas de poder, esse encontro foi transformador. Mas o que o transformou de forma definitiva foi o que aconteceu em 399 a.C. Sócrates foi julgado perante um tribunal de quinhentos cidadãos atenienses, acusado de corromper a juventude e de não reconhecer os deuses da cidade. Foi condenado por uma margem pequena, recusou-se a propor um exílio como pena alternativa, e bebeu a cicuta com uma serenidade que seus discípulos registraram com detalhes perturbadores.

Platão tinha 29 anos quando assistiu à execução do homem que considerava o mais justo que havia conhecido. O impacto dessa experiência nunca o abandonou. Virtualmente todos os seus diálogos, mesmo os mais abstratos e técnicos, carregam a sombra daquele julgamento. A pergunta que atravessa toda a sua obra, às vezes de forma explícita, às vezes subterrânea, é como uma cidade pode executar seu homem mais virtuoso e o que isso diz sobre a democracia, sobre a educação, sobre a relação entre conhecimento e poder.

As viagens e o encontro com Siracusa

Após a morte de Sócrates, Platão deixou Atenas. Viajou pelo Mediterrâneo por aproximadamente doze anos, passando pelo Egito, onde provavelmente entrou em contato com sacerdotes e com a tradição intelectual egípcia, pela Magna Grécia, região do sul da Itália colonizada pelos gregos, onde conheceu os pitagóricos, cujo interesse em matemática e na estrutura numérica da realidade o influenciaria profundamente.

A parada mais consequente foi em Siracusa, na Sicília, onde conheceu Díon, cunhado do tirano Dionísio I. Díon era um jovem intelectualmente ambicioso que ficou fascinado pelas ideias de Platão, e os dois desenvolveram uma amizade que duraria décadas e que arrastaria Platão para duas outras viagens à Sicília, ambas desastrosas do ponto de vista político.

A primeira viagem a Siracusa quase terminou em escravidão. Platão, por razões que os relatos históricos deixam um tanto obscuras, desagradou Dionísio I a ponto de ser colocado num navio e entregue a um mercador espartano que o vendeu como escravo em Egina. Foi comprado e libertado por um admirador de Cirene que o reconheceu como filósofo. A experiência de ter sido escravo, mesmo brevemente, é algo que a maioria das biografias de Platão menciona de passagem, mas que deve ter produzido um efeito sobre um aristocrata ateniense de difícil dimensionamento.

A Academia e o projeto de uma vida

Por volta de 387 a.C., de volta em Atenas, Platão fundou a Academia, instituição que funcionaria por mais de novecentos anos até ser fechada pelo imperador Justiniano em 529 d.C., que a considerava um reduto de paganismo incompatível com o cristianismo oficial do Império. A Academia não era uma escola no sentido moderno com currículos fixos e diplomas, mas um espaço de investigação contínua onde matemática, astronomia, filosofia, política e dialética eram estudadas em combinação.

A inscrição supostamente colocada na entrada, que dizia que quem não soubesse geometria não deveria entrar, revela algo sobre o método de Platão. A matemática não era apenas uma disciplina entre outras, mas um modelo de como o conhecimento deveria funcionar. O geômetra não aprende que dois mais dois são quatro por experiência sensorial acumulada. Demonstra por necessidade lógica. Platão queria uma filosofia que tivesse esse mesmo rigor, que chegasse ao conhecimento não pela acumulação de observações do mundo sensível, sempre mutável e enganoso, mas pela contemplação de verdades que existiam independentemente do que qualquer sentido pudesse captar.

Foi na Academia que Aristóteles chegou, aos dezessete anos, por volta de 367 a.C. Permaneceria lá por vinte anos, primeiro como estudante e depois como professor, desenvolvendo progressivamente uma visão filosófica que se afastava da de Platão em pontos fundamentais. A relação entre os dois é um dos grandes capítulos da história intelectual, dois gênios de temperamentos opostos, o idealista e o empirista, o poeta da metafísica e o sistematizador científico, trabalhando no mesmo espaço por duas décadas.

O mundo das ideias e o problema da realidade

O núcleo da filosofia platônica é a Teoria das Formas, às vezes chamada de Teoria das Ideias, e é aqui que muita gente começa a perder o fio. O nome ajuda pouco porque a palavra ideia em português evoca pensamento subjetivo, algo que existe na mente de alguém. O que Platão chamava de Formas era o oposto disso, realidades objetivas, eternas e imutáveis que existiam independentemente de qualquer mente humana.

A alegoria da caverna, apresentada na República, é a exposição mais famosa dessa visão. Prisioneiros acorrentados numa caverna desde o nascimento veem apenas sombras projetadas na parede por objetos que passam na frente de uma fogueira atrás deles. Tomam as sombras pela realidade porque nunca viram outra coisa. Se um deles fosse libertado e arrastado para fora da caverna, seria temporariamente cegado pela luz do sol. Mas gradualmente seus olhos se ajustariam e ele veria os objetos reais, e depois o próprio sol, fonte de toda luz e visibilidade.

A alegoria funciona em múltiplos níveis simultâneos. É uma teoria do conhecimento, propondo que o que percebemos pelos sentidos é uma imagem degradada de realidades mais fundamentais. É uma teoria política, sugerindo que os governantes deveriam ser aqueles que fizeram o esforço doloroso de sair da caverna e contemplar a verdade, não os que são mais hábeis em manipular as sombras. E é uma teoria da educação, propondo que educar não é depositar informações numa mente vazia, mas orientar a alma para que ela mesma seja capaz de contemplar o real.

A pergunta filosófica que essa teoria levanta e que nunca foi plenamente resolvida é sobre o estatuto das Formas. Onde existem? Como a mente humana as conhece se não são acessíveis pelos sentidos? Qual é a relação entre a Forma do Cavalo e os cavalos individuais que vemos? Aristóteles passou boa parte de sua vida criticando as respostas platônicas a essas questões, e o debate entre realistas e nominalistas na filosofia medieval é, em parte, uma continuação dessa mesma disputa.

O filósofo-rei e o pesadelo político

A República é provavelmente o texto mais lido e mais mal-interpretado de Platão. É frequentemente apresentado como um projeto de utopia autoritária, com sua divisão tripartite da sociedade entre filósofos-reis, guerreiros e produtores, sua censura da arte e da poesia, sua eugenia explícita e sua rejeição da família privada para as classes superiores. E esses elementos estão de fato lá, sem ambiguidade.

Mas a República precisa ser lida no contexto de sua questão central, que não é como deveria ser organizado o Estado ideal, mas o que é a justiça e por que o homem justo é mais feliz do que o injusto. O Estado ideal é construído no diálogo como um método analítico, ao examinar a justiça numa escala maior, na cidade, fica mais fácil ver o que ela é em escala menor, na alma individual. A cidade justa é um espelho ampliado da alma justa.

O filósofo-rei não é uma proposta de ditadura benevolente tanto quanto é uma afirmação sobre o que o conhecimento verdadeiro deveria produzir. Quem compreende realmente o Bem, quem saiu da caverna e contemplou a luz, não deseja o poder pelo poder, não é movido pela ambição ou pela ganância. Governa porque é necessário, com a mesma relutância com que um médico aceita tratar pacientes desagradáveis. O problema, que Platão conhecia, é que esse filósofo raramente existe e que os mecanismos para produzi-lo são extraordinariamente difíceis de construir.

As duas viagens posteriores a Siracusa, onde tentou converter o tirano Dionísio II às ideias filosóficas com o entusiasmo de Díon, foram fracassos completos que quase custaram sua vida novamente e resultaram no exílio e eventual assassinato do amigo. O filósofo que sonhou com o governo da razão experimentou na prática o quanto a política real resistia a qualquer forma de idealismo.

Os diálogos como forma literária

Uma dimensão de Platão que frequentemente se perde nas discussões filosóficas é sua qualidade como escritor. Os diálogos são obras literárias de primeiro nível, com personagens vivos, humor, ironia, tensão dramática e uma prosa que mesmo em tradução preserva uma qualidade rítmica incomum. Platão havia sido poeta antes de conhecer Sócrates, e conta-se que queimou seus poemas depois da conversão filosófica. O impulso poético, porém, não desapareceu. Migrou para os diálogos.

A escolha da forma dialógica não foi acidental. Platão nunca fala em primeira pessoa em seus textos. Sócrates é o personagem principal na maioria dos diálogos, mas Sócrates histórico não escreveu nada. Platão fala através de um personagem ficcional que é uma construção literária, não uma transcrição. Isso permite uma distância irônica que torna impossível saber, em muitos casos, o que Platão pessoalmente acredita versus o que está explorando dialecticamente.

Os estudiosos debatem se o Sócrates dos primeiros diálogos, que diz não saber de nada e vai destruindo as certezas dos interlocutores sem propor alternativas, representa o Sócrates histórico com mais fidelidade do que o Sócrates dos diálogos médios e tardios, que explica a Teoria das Formas e constrói repúblicas imaginárias. A questão é insolúvel e talvez seja parte do ponto. Platão estava criando um personagem que funcionava como veículo de exploração filosófica, não escrevendo memórias.

A influência que não termina

Traçar a influência de Platão com precisão é quase impossível porque ela está em toda parte. O neoplatonismo de Plotino, no século III d.C., releu Platão através de uma lente mística e produziu uma síntese que influenciou profundamente o pensamento cristão primitivo, especialmente Agostinho de Hipona. O Agostinho que formula a ideia de que o coração humano é inquieto até repousar em Deus está pensando com categorias platônicas mesmo que não reconheça isso explicitamente.

Marsilio Ficino, como já vimos, trouxe Platão de volta ao centro do pensamento europeu no século XV e forneceu ao Renascimento sua linguagem filosófica mais característica. O idealismo alemão de Kant e Hegel é impensável sem a herança platônica. A física matemática moderna, com sua convicção de que a realidade última do universo é estrutura matemática, tem uma afinidade profunda com a intuição platônica de que o real é racional e o racional é real.

Na política, a ideia de que existe uma justiça objetiva que os arranjos sociais deveriam tentar realizar, que não é apenas o que a maioria decide ou o que o mais forte impõe, é uma herança platônica que sustenta tanto o direito natural medieval quanto as declarações modernas de direitos humanos. E na teologia, a ideia de que Deus é o Bem absoluto, eterno, imutável e fonte de toda realidade, é muito mais platônica do que hebraica na sua estrutura conceitual.

Platão morreu por volta de 347 a.C., com oitenta anos, segundo a tradição, durante um banquete de casamento. Deixou a Academia funcionando, com Espeusipo, seu sobrinho, como sucessor. Deixou trinta e cinco diálogos e treze cartas, embora a autenticidade de algumas seja disputada. E deixou uma forma de fazer perguntas que se tornou de tal modo parte do vocabulário intelectual do Ocidente que é praticamente impossível pensar sobre os grandes temas da existência sem usar, em algum momento, o instrumental que ele construiu.

Há algo perturbador e ao mesmo tempo admirável no fato de que um homem que viveu em Atenas há mais de dois mil anos ainda seja capaz de provocar controvérsia genuína, de dividir filósofos profissionais, de inspirar tanto admiração quanto rejeição apaixonada. Significa que as perguntas que ele formulou ainda não foram respondidas de forma satisfatória, e que a conversa que começou naquele tribunal que condenou Sócrates ainda não chegou ao fim.

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Foto de Hermes Fulcanelli

Hermes Fulcanelli

Inspirado pelas jornadas espirituais e físicas da alquimia, hermetismo e estoicismo, Hermes Fulcanelli conecta passado e presente por meio de suas profundas explorações em mitologia e espiritualidade, guiando seus pacientes e leitores em suas próprias viagens de autodescoberta e iluminação em ciência, filosofia e religião.
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