alquimia da alma

Plotino e a Filosofia que Tentou Descrever o Indescritível

Há uma pergunta que atravessa toda a história da filosofia ocidental com uma persistência que nenhum sistema conseguiu silenciar definitivamente: de onde vem tudo isso? Não no sentido físico, que a cosmologia pode endereçar com modelos e equações, mas no sentido mais radical, por que existe algo em vez de nada, e o que é esse algo em sua natureza mais profunda? Plotino de Licopólis, filósofo egípcio do século III d.C., chegou mais perto de uma resposta do que qualquer pensador antes ou depois dele, e o fez construindo um sistema tão rigoroso e tão vertiginoso que ainda hoje leitores treinados em filosofia chegam ao fim dos seus tratados com a sensação de ter tocado em algo que excede a própria linguagem.
kybalion-filosofia-plotino

Um Egípcio que Pensou em Grego

Plotino nasceu por volta de 204 ou 205 d.C. em Licopólis, cidade do Egito romano que corresponde à atual Asyut. Quase nada se sabe sobre sua família ou seus primeiros anos de vida, o que é em parte intencional. Seu biógrafo e discípulo Porfírio registra que Plotino se recusava a falar sobre sua origem, seus pais ou sua data de nascimento, considerando que qualquer atenção ao corpo e à história pessoal representava um desvio em relação ao que realmente importava. Sua biografia começa, praticamente, aos 27 anos, quando chegou a Alexandria em busca de um mestre.

Tentou ouvir vários filósofos e saiu decepcionado de todos. Até que um amigo o levou até Amônio Sacas, pensador de quem nenhum texto sobreviveu mas cuja influência atravessa toda a filosofia do período. Plotino ouviu Amônio e reconheceu imediatamente o que havia procurado. Passou onze anos estudando com ele, depois se juntou à expedição militar do imperador Gordiano III contra a Pérsia com a intenção de entrar em contato com a filosofia persa e indiana, plano que fracassou quando Gordiano foi assassinado e o exército se desfez em território inimigo.

Plotino escapou, foi para Roma, e ali fundou sua escola por volta de 245 d.C. Ficou em Roma até quase o fim da vida, reunindo discípulos que incluíam senadores, médicos, escritores e ao menos um imperador, Galieno, que chegou a considerar seriamente a proposta de Plotino de fundar uma cidade filosófica no sul da Itália, governada pelas leis de Platão, chamada Platonópolis. O projeto não se concretizou, mas o fato de ter chegado tão perto de virar política imperial revela o peso que Plotino exercia nos círculos de poder romanos.

O Sistema das Três Hipóstases

O pensamento de Plotino está contido nas Enéadas, coletânea de 54 tratados organizada postumamente por Porfírio em seis grupos de nove, daí o nome grego para noves. Porfírio editou, organizou e preservou os textos, mas o conteúdo é inteiramente de Plotino, ditado nos seus últimos anos de vida com uma intensidade que seu discípulo descreve como quase sobrenatural.

O sistema que as Enéadas expõem é uma cosmologia de emanação organizada em três princípios fundamentais, chamados hipóstases. O primeiro e mais elevado é o Uno, que Plotino descreve de forma consistentemente negativa porque qualquer afirmação positiva sobre ele já o limitaria. O Uno é anterior ao ser, anterior ao pensamento, anterior a qualquer predicado. É a fonte de tudo, mas não contém nada que já não esteja além dele. A imagem que Plotino usa com frequência é a do sol, que irradia luz sem diminuir, sem intenção, sem esforço, simplesmente porque sua natureza é transbordar.

Do Uno emana o Intelecto, a segunda hipóstase, que é o âmbito do pensamento puro e das Formas platônicas. O Intelecto é simultaneamente o sujeito que pensa e o objeto pensado, uma autoconsciência absoluta que contém em si mesma os modelos eternos de tudo o que pode existir. É o nível da realidade onde os arquétipos residem, onde o Belo, o Verdadeiro e o Bom existem em forma pura, sem a mediação da matéria.

Do Intelecto emana a Alma, a terceira hipóstase, que é o princípio de vida e movimento. A Alma tem duas faces, uma voltada para o Intelecto, contemplando as formas eternas, e outra voltada para baixo, para o mundo material, que ela produz como uma sombra ou reflexo da sua atividade contemplativa. O mundo físico que habitamos é a última emanação dessa cadeia descendente, o ponto mais distante do Uno, onde a luz original se tornou mais tênue mas permanece presente em algum grau em cada coisa existente.

A Ponte entre Platão e o Hermetismo

Plotino se via como intérprete de Platão, como alguém cuja tarefa era tornar explícito o que o fundador da Academia havia deixado implícito nos diálogos. Mas o ambiente intelectual de Alexandria, onde se formou, era saturado de influências que Platão jamais conheceu. Os textos herméticos, reunidos no Corpus Hermeticum e atribuídos ao lendário Hermes Trismegisto, circulavam amplamente no Egito romano do segundo e terceiro séculos. A doutrina hermética de que o universo é uma emanação progressiva de uma realidade divina única, e de que o caminho do homem é o retorno ascendente a essa origem, é estruturalmente idêntica ao sistema plotiniano.

A questão de quem influenciou quem é parcialmente irrespondível, dado que Amônio Sacas, o mestre de Plotino, também foi mestre de Orígenes, um dos fundadores da teologia cristã, e que todos eles bebiam de fontes comuns que misturavam platonismo médio, pitagorismo e hermetismo de formas que a erudição moderna ainda não separou completamente. O que se pode dizer com segurança é que Plotino e os textos herméticos compartilham uma visão do cosmos que vai além da coincidência intelectual. O homem que busca o retorno ao Uno em Plotino e o homem que busca a gnose no Corpus Hermeticum estão fazendo a mesma viagem por dois mapas diferentes.

Para a alquimia, a influência é ainda mais concreta. Os alquimistas medievais e renascentistas operavam dentro de um universo plotiniano sem necessariamente saber disso. A crença de que a matéria contém em si uma centelha espiritual que pode ser liberada pelo processo correto, de que o chumbo e o ouro são o mesmo em essência mas diferem no grau de perfeição, de que o trabalho do alquimista é acelerar um processo de purificação que o cosmos executaria sozinho mas mais lentamente, tudo isso é plotinismo aplicado à bancada laboratorial. Paracelso, Giordano Bruno e os rosacruzes do século XVII beberam de Plotino diretamente, e a linguagem das Enéadas aparece transliterada em terminologia alquímica com uma regularidade que não deixa dúvida sobre a filiação.

O Homem que Se Envergonhava de Ter um Corpo

Porfírio registra um detalhe sobre Plotino que ilumina toda a sua filosofia com uma clareza perturbadora. Plotino se recusava a deixar que pintassem seu retrato ou fizessem uma estátua sua, argumentando que já era humilhante o suficiente ter de carregar a imagem que a natureza havia imposto à alma, sem acrescentar uma cópia de uma cópia. A frase é tipicamente plotiniana na sua estrutura, o corpo como cópia imperfeita da alma, a estátua como cópia imperfeita do corpo, cada reprodução se afastando mais da realidade original.

Essa aversão ao corpo era filosófica, não neurótica. Para Plotino, a matéria é o grau mínimo de ser, o ponto onde a emanação do Uno se torna tão tênue que beira o não-ser. O corpo é uma prisão no sentido platônico, o peso que mantém a alma voltada para baixo quando sua vocação é a ascensão contemplativa. Mas Plotino não pregava o ascetismo severo dos gnósticos contemporâneos seus. Comia, tinha amigos, cuidava de crianças órfãs de discípulos falecidos, envolvia-se na vida prática da sua comunidade. A recusa do corpo era intelectual, a afirmação de que o corpo não é o que realmente somos, sem que isso implicasse maltratá-lo ou ignorar os deveres concretos da existência.

A Experiência da União com o Uno

O ápice do sistema plotiniano é a experiência que as Enéadas descrevem como henose, a união mística com o Uno. Plotino a descreve com uma contenção vocabular que é ela mesma eloquente, porque qualquer palavra precisa demais já falsifica uma experiência que ocorre aquém da distinção sujeito-objeto. Porfírio afirma que presenciou Plotino em estados que reconhecia como êxtase contemplativo e que o próprio Plotino descrevia como momentos em que o Intelecto se silencia e algo mais imediato e mais pleno toma o seu lugar.

Essa dimensão do pensamento plotiniano foi a que mais fertizilou a tradição mística posterior. Mestre Eckhart no século XIII, João da Cruz no século XVI, e os sufis islâmicos medievais descrevem experiências de dissolução do eu individual numa presença maior com uma linguagem que ressoa diretamente com as Enéadas. O hermetismo tardio e a tradição rosacruz integraram a henose plotiniana como o objetivo final do trabalho espiritual, o ponto em que a distinção entre o operador e o princípio com que opera desaparece numa unidade que só pode ser vivida, nunca descrita adequadamente.

Por que Plotino Ainda Importa

A filosofia acadêmica contemporânea tende a tratar Plotino como objeto de estudo histórico, um elo na cadeia que liga Platão ao pensamento cristão medieval. Essa leitura é correta mas insuficiente. Plotino colocou questões que a filosofia analítica do século XX sistematicamente evitou e que voltaram pela porta dos fundos em forma de problemas da consciência, da intencionalidade e da subjetividade que os modelos materialistas não conseguem resolver de forma satisfatória.

A pergunta plotiniana fundamental, como é que existe experiência subjetiva num universo de objetos físicos, é o que hoje se chama de “hard problem of consciousness”, e os filósofos que trabalham nessa área reconhecem explicitamente que Plotino articulou a dificuldade com uma precisão que a neurociência contemporânea ainda não conseguiu superar. O Uno que transborda sem diminuir, o Intelecto que conhece sem separação entre conhecedor e conhecido, a Alma que anima sem ser idêntica ao que anima, são formulações que descrevem a estrutura da experiência consciente com uma sofisticação que surpreende qualquer leitor sem preconceitos sobre o que um texto do século III pode ter a dizer.

Plotino morreu em 270 d.C., provavelmente de lepra, numa villa na Campânia para onde se retirou nos últimos meses de vida. Porfírio registra que suas últimas palavras foram um convite ao único amigo presente para elevar em si o divino ao divino no Universo. A frase é um resumo perfeito de tudo o que havia escrito, a ideia de que a tarefa humana é o reconhecimento progressivo de uma identidade que nunca se perdeu de verdade, apenas se esqueceu de si mesma na descida para o mundo da matéria e do tempo.

Compartilhe

Facebook
X
LinkedIn
WhatsApp
Telegram
Pinterest
Email
Imprimir
Foto de Hermes Fulcanelli

Hermes Fulcanelli

Inspirado pelas jornadas espirituais e físicas da alquimia, hermetismo e estoicismo, Hermes Fulcanelli conecta passado e presente por meio de suas profundas explorações em mitologia e espiritualidade, guiando seus pacientes e leitores em suas próprias viagens de autodescoberta e iluminação em ciência, filosofia e religião.
0 0 votos
Classificação do artigo
Inscrever-se
Notificar de
guest
0 Comentários
mais antigos
mais recentes Mais votado