alquimia da alma

Atenas e a Invenção de Perguntas que o Mundo Ainda Não Terminou de Responder

Há uma estranheza peculiar em Atenas que a distância histórica tende a apagar. A cidade que produziu a democracia, a tragédia, a filosofia, a história como gênero literário e a retórica como disciplina fez tudo isso num espaço físico que, no auge de seu esplendor, abrigava talvez trezentos mil habitantes, dos quais apenas uma fração era cidadã com direito pleno de participação política. A maior parte da população era composta por escravos, estrangeiros residentes chamados metecos e mulheres excluídas da vida pública. O milagre ateniense, por mais que o termo soe grandioso, precisa ser entendido a partir dessa contradição de base, a de que uma cidade fundada sobre a exclusão sistemática de seus próprios habitantes foi capaz de formular os princípios intelectuais que séculos depois seriam invocados para desfazer exatamente essa exclusão.
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A cidade ocupava uma posição geográfica que moldou seu caráter antes que qualquer filósofo ou legislador o fizesse. Situada numa planície rodeada de montanhas na região da Ática, com acesso ao mar pelo porto do Pireu, Atenas era ao mesmo tempo protegida e aberta, o que traduzia uma tensão permanente entre o fechamento identitário da polis e a abertura cosmopolita do comércio marítimo. Essa tensão produziu uma cultura urbana em que cidadãos, artesãos, comerciantes estrangeiros, filósofos itinerantes e sofistas cobrando honorários conviviam num mesmo espaço público, a ágora, cujo nome significa tanto praça quanto assembleia e cujo significado duplo diz algo essencial sobre a confusão produtiva entre o comercial e o político que caracterizava a vida ateniense.

A Democracia como Experimento Radical e seus Limites Internos

A democracia ateniense que Clístenes reorganizou em 508 a.C. e que Péricles consolidou no século seguinte era um regime de participação direta, sem representantes, sem partido e sem burocracia estável. Os cidadãos se reuniam na Assembleia, a Eclésia, várias vezes por mês para deliberar e votar sobre guerra, paz, leis e política externa. Os cargos públicos eram distribuídos por sorteio entre os cidadãos elegíveis, o que refletia a convicção de que qualquer cidadão era em princípio capaz de governar, e que a alternância era mais saudável do que a especialização. Os generais, os estrategos, eram a exceção, eleitos por mérito, o que produzia uma tensão interessante entre o igualitarismo do sorteio e a meritocracia da guerra.

O problema estrutural desse sistema era a vulnerabilidade à retórica. Quando as decisões dependem de persuadir uma assembleia de milhares de pessoas reunidas numa colina, quem sabe falar tem uma vantagem enorme sobre quem sabe pensar. Os sofistas, viajantes profissionais que ensinavam a arte de argumentar em favor de qualquer posição mediante pagamento, prosperaram exatamente nessa brecha entre o poder da fala e a qualidade do argumento. Protágoras, o mais famoso deles, afirmava que o ser humano é a medida de todas as coisas, o que no contexto democrático significava que a verdade era aquilo de que a maioria se convencia, uma posição que Sócrates passou a vida inteira atacando. Que a democracia ateniense tenha condenado Sócrates à morte em 399 a.C., acusado de corromper a juventude e introduzir novos deuses, é o episódio mais perturbador da história intelectual grega, um regime que produziu a filosofia usando suas próprias ferramentas para eliminá-la.

Sócrates, Platão e a Invenção de um Método que Ainda Não Tem Substituto

Sócrates escreveu nada. Todo o seu pensamento chegou até nós filtrado pelos escritos de seus discípulos, principalmente Platão, o que cria uma dificuldade historiográfica que os filólogos chamam de problema socrático e que consiste em distinguir o que Sócrates de fato pensava do que Platão colocou em sua boca para desenvolver suas próprias ideias. A figura que emerge dos diálogos platônicos é a de um homem que percorria a ágora ateniense desconfortando interlocutores com perguntas que eles pensavam saber responder, e que invariavelmente revelavam, ao tentar responder, que seu conhecimento era superficial. O método, que ficou conhecido como maiêutica, comparação que o próprio Sócrates fazia com a profissão de sua mãe, uma parteira, consistia em fazer emergir do interlocutor o conhecimento que ele carregava sem saber, ou em revelar a ausência desse conhecimento onde havia apenas a certeza de tê-lo.

Platão, que aos vinte anos presenciou o julgamento e a morte de seu mestre e nunca esqueceu, desenvolveu a partir daí uma filosofia que procurava garantir o conhecimento contra as flutuações da opinião e da retórica democrática. Sua teoria das Formas, a ideia de que a realidade verdadeira é constituída por entidades imateriais, eternas e imutáveis das quais os objetos sensíveis são apenas cópias imperfeitas, pode ser lida como uma resposta filosófica ao trauma de ver a assembleia condenar o homem mais sábio de Atenas por maioria de votos. Se a verdade dependesse da opinião da maioria, Sócrates teria errado e seus juízes teriam acertado, o que era inaceitável. A verdade precisava estar em outro lugar, acima da votação, imune à eloquência dos acusadores.

Aristóteles e o Desvio que Fundou Tudo o Mais

Aristóteles chegou à Academia de Platão aos dezessete anos e ficou vinte, tempo suficiente para absorver o platonismo até o tutano e para começar a discordar dele com rigor sistemático. Onde Platão via as Formas como realidades separadas e superiores ao mundo sensível, Aristóteles as via como estruturas imanentes às próprias coisas, presentes na forma do carvalho dentro da bolota, na forma do adulto dentro da criança. Essa mudança de localização da essência, de um mundo separado para dentro das próprias coisas, tinha consequências enormes para a física, a biologia, a ética e a política, e produziu um sistema filosófico de uma abrangência que o mundo antigo nunca havia visto e raramente voltaria a ver.

Aristóteles fundou o Liceu em Atenas por volta de 335 a.C., uma escola cujos membros eram chamados peripatéticos porque discutiam enquanto caminhavam pelos jardins. Ali ele escreveu, ditou ou organizou textos sobre lógica, física, metafísica, biologia, psicologia, ética, política, retórica e poética. A biologia aristotélica, baseada na observação sistemática de centenas de espécies, permaneceu como o trabalho zoológico mais completo da Antiguidade por quase dois milênios. Sua lógica, o sistema de silogismos que deduzia conclusões a partir de premissas, foi o único sistema formal de raciocínio disponível no Ocidente até o século XIX. Que um único homem tenha feito tudo isso num único corpus de obras é uma anomalia histórica que os comentadores ainda não sabem explicar sem recorrer ao espanto.

A Stoa Pintada e o Nascimento do Estoicismo em Solo Ateniense

O estoicismo nasceu em Atenas numa circunstância que tem algo de simbólico. Zenão de Cítio, mercador cipriota que havia naufragado e perdido toda a sua carga numa viagem, chegou à cidade por volta de 300 a.C. e passou a frequentar livrarias e ginásios em busca de filosofia. Ao ler por acaso os escritos de Xenofonte sobre Sócrates, ficou tão impressionado que perguntou ao livreiro onde podia encontrar pessoas assim. O livreiro apontou para Crates de Tebas, um cínico que passava naquele momento pela rua, e Zenão começou a seguir Crates ali mesmo. O acaso e o naufrágio como pontos de partida para uma das filosofias mais influentes da história ocidental é um detalhe que os próprios estoicos teriam apreciado, dado que consideravam a Providência a única explicação coerente para a ordem dos acontecimentos.

Zenão eventualmente fundou sua própria escola, ensinando no Pórtico Pintado, a Stoa Poikile, uma galeria coberta decorada com afrescos de batalhas que ficava na borda norte da ágora ateniense. O nome do local deu nome à escola. Os estoicos absorveram a lógica aristotélica, reformularam a física com influências heraclíticas e cínicas, e construíram uma ética centrada na ideia de que o único bem verdadeiro é a virtude e que tudo o mais, riqueza, saúde, reputação, está fora do controle do sábio e portanto não pode ser fundamento de uma vida boa. Essa ética nascia diretamente do solo ateniense, herdando de Sócrates o desprezo pela opinião comum, de Platão a busca por um bem imune às flutuações do mundo sensível, e de Aristóteles a confiança na razão como faculdade definidora do ser humano.

Atenas como Centro de Mistérios e sua Relação com o Saber Oculto

A Atenas filosófica e a Atenas dos mistérios existiam simultaneamente, e seus frequentadores se sobrepunham mais do que os relatos convencionais sugerem. Elêusis, santuário a vinte e dois quilômetros de Atenas, era o centro dos Mistérios Eleusinos, rituais iniciáticos realizados anualmente em honra de Deméter e Perséfone, cujo conteúdo os iniciados juravam nunca revelar. O silêncio era constitutivo da experiência, e a palavra mysterion deriva do verbo myein, cerrar os lábios, o mesmo radical que deu origem ao termo misticismo. Platão foi iniciado nos mistérios eleusinos, e as imagens de ascensão, de visão direta e de transformação interior que permeiam seu pensamento carregam marcas dessa experiência iniciática que a forma filosófica dos diálogos às vezes encobre e às vezes deixa transparecer.

A tradição hermética, que se desenvolveria plenamente séculos depois nos textos egípcio-gregos do Corpus Hermeticum, bebeu profundamente da filosofia ateniense, sobretudo do platonismo tardio. O Nous hermético, a inteligência divina que permeia e organiza o cosmos, é uma reelaboração do Demiurgo platônico e do motor imóvel aristotélico filtrado por uma sensibilidade religiosa mediterrânea que combinava elementos egípcios, gregos e judaicos. Hermes Trismegisto, figura lendária à qual os textos herméticos eram atribuídos, era identificado com o deus egípcio Thoth, mas o vocabulário filosófico com que sua sabedoria era expressa era inequivocamente grego, e portanto indevidamente ateniense, produto de uma síntese que só foi possível porque Atenas havia criado uma linguagem filosófica suficientemente precisa e suficientemente flexível para absorver e reformular tradições muito diferentes da sua.

A Decadência que Não Foi um Fim

Atenas entrou em declínio político depois da derrota para Esparta na Guerra do Peloponeso em 404 a.C., recuperou-se parcialmente, voltou a ser submetida, desta vez por Filipe II da Macedônia em 338 a.C., e viu seu poder militar e político definhar de forma irreversível. Alexandre, filho de Filipe e ex-aluno de Aristóteles, levou a cultura grega para o Egito, a Pérsia, a Índia, mas o centro desse mundo helenístico deslocou-se para Alexandria, para Antioquia, para Pérgamo. Atenas tornou-se uma cidade universitária, um museu de si mesma, visitada por romanos ricos em busca de verniz cultural, frequentada por filósofos que preferiam a reputação da cidade à substância de seu poder.

Mas as escolas filosóficas continuaram. A Academia platônica sobreviveu, em várias formas e com várias orientações, até 529 d.C., quando o imperador Justiniano ordenou seu fechamento por razões religiosas. O Liceu aristotélico também perdurou. Os estoicos e os epicuristas mantiveram suas comunidades. Atenas era, nesse período, menos uma potência do que um símbolo, e os símbolos têm uma durabilidade que as potências raramente alcançam. Cícero estudou filosofia em Atenas. Paulo de Tarso pregou no Areópago, o mesmo rochedo onde os atenienses julgavam crimes de sangue. A própria escolha de Paulo pelo Areópago como palco para anunciar o Deus desconhecido sugere uma percepção clara de que, para disputar a atenção intelectual do mundo mediterrâneo, era preciso fazê-lo em Atenas.

O que Atenas Ensinou ao Mundo sem que o Mundo Soubesse de Onde Vinha a Lição

A influência de Atenas sobre a civilização ocidental é tão profunda que se tornou invisível, incorporada à estrutura básica de como o Ocidente pensa antes que qualquer criança aprenda a nomear o que está aprendendo. A ideia de que as leis devem ser públicas e discutidas vem de Atenas. A ideia de que o conhecimento progride pela argumentação sistemática e pela refutação de hipóteses vem de Atenas. A ideia de que a arte pode representar a condição humana com profundidade trágica suficiente para produzir catarse, palavra que é ela própria grega, vem de Atenas. A ideia de que o passado merece ser registrado, investigado e explicado por causas humanas e não apenas divinas vem de Tucídides e Heródoto, que eram atenienses ou escreviam em diálogo com Atenas.

A lista de conceitos que o mundo usa em grego porque foi Atenas que os formulou pela primeira vez abarca praticamente toda a terminologia com que o pensamento ocidental se pensa a si mesmo. Democracia, política, filosofia, ética, lógica, metafísica, retórica, tragédia, comédia, academia, enciclopédia, são palavras gregas que sobreviveram porque as realidades que descrevem foram inventadas ou formalizadas em Atenas num período de menos de dois séculos. Esse grau de concentração criativa num espaço tão pequeno e num tempo tão curto é um fenômeno sem paralelo documentado na história intelectual humana, e continua exigindo explicação de todos que o examinam com atenção suficiente para perceber o quanto é improvável.

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Foto de Hermes Fulcanelli

Hermes Fulcanelli

Inspirado pelas jornadas espirituais e físicas da alquimia, hermetismo e estoicismo, Hermes Fulcanelli conecta passado e presente por meio de suas profundas explorações em mitologia e espiritualidade, guiando seus pacientes e leitores em suas próprias viagens de autodescoberta e iluminação em ciência, filosofia e religião.
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