O Homem que Se Acreditava um Deus
Empédocles nasceu em Agrigento, na Sicília, por volta de 494 a.C., numa família aristocrática com tradição política. A cidade era uma das mais ricas e populosas do mundo grego ocidental, e ele cresceu dentro de uma cultura que misturava influências gregas, cartaginesas e orientais com uma naturalidade que a Grécia continental raramente experimentava. Esse cruzamento de mundos importa porque o pensamento de Empédocles é, ele mesmo, um cruzamento, racional e místico ao mesmo tempo, científico e poético de forma indissociável.
Escreveu em versos hexâmetros, o mesmo metro de Homero e Hesíodo, o que significa que tratava sua filosofia como matéria digna de linguagem épica. Dois poemas extensos chegaram até nós em fragmentos, “Sobre a Natureza” e “Purificações”, e os dois revelam um pensador que se via simultaneamente como investigador do cosmos e como alma em expiação espiritual. Num dos fragmentos mais citados da literatura pré-socrática, ele se apresenta como um deus imortal entre os mortais, declarando ter sido em vidas anteriores um jovem, uma jovem, um arbusto, um pássaro e um peixe no mar. Essa afirmação, que hoje soa excêntrica, estava dentro de uma tradição pitagórica de transmigração das almas que Empédocles absorveu e radicalizou.
As histórias sobre sua morte são lendárias e variadas, mas a mais famosa é aquela que o descreve atirando-se ao interior do vulcão Etna para provar sua imortalidade divina. A posteridade preservou apenas uma sandália de bronze, supostamente cuspida pela erupção como evidência irônica da sua mortalidade. A história é provavelmente apócrifa, mas revela como a tradição o enxergava, como alguém cuja grandeza e cujo excesso eram difíceis de separar.
Os Quatro Elementos como Fundação de Tudo
Antes de Empédocles, os filósofos jônicos buscavam um único princípio fundamental para a realidade. Tales propôs a água, Anaxímenes o ar, Heráclito o fogo, Anaxímandro o ápeiron, uma substância indefinida e primordial. Cada um reduzia o cosmos a uma única origem, e cada redução criava problemas que o seguinte tentava resolver.
Empédocles cortou esse nó propondo quatro elementos coexistentes e eternos, chamados por ele de “raízes”, que se combinam em proporções variadas para produzir tudo o que existe. A carne humana era uma combinação específica de terra, água, fogo e ar. O sangue era outra. O osso era outra. A variedade infinita do mundo visível resultava das proporções infinitas em que esses quatro elementos podiam se misturar, como um pintor que produz mil cores a partir de apenas quatro pigmentos.
A metáfora do pintor é do próprio Empédocles e é extraordinariamente moderna na sua lógica. O universo funciona por composição e decomposição, por síntese e análise, e a mudança que observamos nas coisas é sempre uma reorganização dos mesmos elementos permanentes. Nada se cria, nada se destrói, tudo se transforma. Essa formulação, que o século XVIII atribuiria a Lavoisier como princípio de conservação da matéria, estava enunciada com clareza perturbadora no século V a.C. numa ilha do Mediterrâneo.
As Duas Forças que Movem o Universo
Os quatro elementos em si eram inertes. Empédocles precisava de um mecanismo para explicar como eles se combinavam e se separavam, e introduziu duas forças cósmicas que chamou de Amor e Ódio, ou Philía e Neikos em grego. O Amor atrai e une os elementos diferentes, produzindo composição e harmonia. O Ódio separa e dispersa, produzindo dissolução e isolamento.
O cosmos, para Empédocles, oscila entre dois estados extremos num ciclo eterno. Quando o Amor domina completamente, todos os elementos se fundem numa esfera perfeita e homogênea, o Sfairos, um estado de unidade total sem distinção interna. Quando o Ódio domina completamente, os quatro elementos se separam em camadas puras, sem mistura. Entre esses dois extremos, o universo que habitamos existe num estado intermediário de mistura parcial, onde Amor e Ódio coexistem e competem, produzindo a multiplicidade e o movimento que observamos.
Essa cosmologia encontrou eco imediato na tradição hermética. O princípio hermético da polaridade, desenvolvido nos textos atribuídos a Hermes Trismegisto e sistematizado séculos depois no Kybalion, descreve exatamente essa dinâmica de forças opostas que mantêm o universo em equilíbrio dinâmico. A Grande Obra alquímica operava com a tensão entre enxofre e mercúrio, entre princípio ativo e princípio passivo, entre dissolução e coagulação, numa linguagem que traduzia simbolicamente o que Empédocles havia articulado em termos cosmológicos. Os alquimistas medievais não citavam Empédocles diretamente, mas operavam dentro de um mundo conceitual que ele havia ajudado a construir.
Empédocles e a Biologia do Acaso
Uma das contribuições mais surpreendentes de Empédocles está na sua teoria sobre a origem dos seres vivos, que prefigura, com limitações óbvias mas com uma lógica impressionante, o conceito moderno de seleção natural. Na fase em que o Ódio começa a atuar sobre o estado de unidade do Sfairos, os elementos se separam e se recombinam de formas caóticas. Surgem partes isoladas de corpos, braços sem troncos, olhos sem cabeças, criaturas deformadas e inviáveis. A maioria dessas combinações perece. As combinações funcionais, aquelas em que as partes formam um conjunto capaz de sobreviver e se reproduzir, persistem.
Darwin não leu Empédocles antes de escrever “A Origem das Espécies”, mas Aristóteles registrou a teoria do filósofo siciliano com suficiente clareza para que historiadores da ciência reconhecessem nela uma intuição proto-evolutiva. A ideia de que a ordem biológica emerge de um processo de eliminação do inviável, e não de um desígnio prévio, era absolutamente heterodoxa no mundo antigo e permaneceria marginal por mais de dois milênios.
A Medicina que Vem dos Elementos
Empédocles era também médico, ou pelo menos praticava curas que seus contemporâneos descreviam com admiração próxima da reverência. Conta-se que impediu uma epidemia em Selinunte drenando pântanos e alterando o curso de dois rios para melhorar a qualidade do ar da cidade. A história combina engenharia sanitária com intuição sobre a relação entre ambiente e saúde que antecipava Hipócrates.
A teoria dos quatro humores, que dominou a medicina ocidental por mais de dois mil anos e que Hipócrates e Galeno sistematizaram, deriva diretamente dos quatro elementos de Empédocles. Sangue, fleuma, bílis amarela e bílis negra correspondiam ao ar, à água, ao fogo e à terra, respectivamente. A saúde era equilíbrio entre esses humores; a doença era desequilíbrio. O médico, como o alquimista mais tarde, buscava restaurar a proporção correta entre os elementos constituintes do organismo. A linguagem mudou ao longo dos séculos, mas a estrutura conceitual permaneceu recognoscível até que a química e a microbiologia do século XIX a deslocassem definitivamente.
A Influência que Chegou até Jung
Aristóteles foi o grande sistematizador da herança de Empédocles. Absorveu os quatro elementos, modificou a teoria das forças motrizes e construiu sobre essa base uma física que a Europa medieval tomou como autoridade quase sagrada. Durante séculos, a cosmologia aristotélico-empedocliana foi o único mapa disponível para entender a constituição do universo físico.
A alquimia árabe e europeia herdou esse mapa e o transformou em linguagem operativa. Os quatro elementos tornaram-se os quatro estados da matéria, as quatro operações fundamentais, os quatro estágios da Grande Obra. Paracelso, no século XVI, expandiu o sistema adicionando três princípios, sal, enxofre e mercúrio, mas o substrato quaternário de Empédocles permanecia reconhecível por baixo das camadas simbólicas acumuladas.
Carl Jung, no século XX, identificou nos quatro elementos uma correspondência com quatro funções psicológicas fundamentais, pensamento, sentimento, sensação e intuição, e usou essa estrutura para construir sua tipologia da personalidade. Quando alguém hoje faz um teste de perfil psicológico baseado nas funções jungianas, está operando, a vários graus de distância, dentro de um sistema que Empédocles esboçou num poema escrito em hexâmetros gregos há dois mil e quinhentos anos.
O Que Sobra Depois de Tudo Isso
Empédocles foi um desses raros pensadores cuja influência se ramificou em tantas direções que rastreá-la integralmente exigiria uma história paralela da civilização ocidental. Física, biologia, medicina, alquimia, psicologia e filosofia guardam fragmentos seus, frequentemente sem saber que estão guardando. Seus poemas chegaram até nós em pedaços insuficientes para uma leitura completa, mas suficientes para revelar uma mente que recusava a separação entre ciência e espiritualidade como categorias estanques.
Isso talvez seja o que mais perturba no pensamento de Empédocles quando lido com atenção. Ele tratava o cosmos, a biologia, a alma e a ética como aspectos de um único problema, e acreditava que compreender a constituição da matéria era inseparável de compreender a própria condição humana. Essa recusa de fragmentar o conhecimento em compartimentos separados parece hoje quase ingênua, até o momento em que se percebe que a fragmentação produziu especialistas que sabem tudo sobre partes do mundo e cada vez menos sobre o mundo como um todo. Empédocles errou em muita coisa. A direção do olhar, no entanto, continua apontando para algo que ainda não sabemos nomear completamente.