A afirmação pode soar modesta para ouvidos contemporâneos acostumados à ciência como procedimento normal. No contexto do século VI a.C., era uma ruptura tão radical quanto qualquer revolução intelectual posterior. Todas as civilizações anteriores, sem exceção conhecida, explicavam a origem e a estrutura do mundo através de narrativas míticas onde forças divinas com vontades, paixões e conflitos pessoais eram os agentes causais de tudo que acontecia. Tales fez algo mais perturbador do que qualquer negação direta. Tornou os deuses desnecessários para explicar o real.
Mileto e o Mundo que Formou Tales
Para entender Tales, é preciso entender Mileto. A cidade ficava na costa ocidental da Anatólia, na região chamada Jônia, e era no século VI a.C. uma das cidades mais cosmopolitas e comercialmente ativas do mundo mediterrâneo. Seus navios chegavam ao Egito, à Fenícia, ao Mar Negro e à Itália meridional. Seus mercadores e diplomatas conviviam com egípcios, babilônios, persas, fenícios e lídios numa intensidade de contato cultural que a Grécia continental, mais fechada em si mesma, não experimentava na mesma medida.
Tales viajou extensamente, segundo as fontes antigas. Esteve no Egito, onde aprendeu geometria com os sacerdotes e, segundo a tradição, calculou a altura das pirâmides medindo a sombra delas no momento em que sua própria sombra era igual à sua altura, um método elegante que usa a proporcionalidade das sombras para resolver um problema que parecia exigir o acesso ao topo da construção. Esteve na Babilônia, onde teve contato com registros astronômicos acumulados durante séculos pelos sacerdotes caldeus.
Esse cosmopolitismo intelectual é fundamental. Tales absorveu tradições de conhecimento que civilizações mais antigas haviam desenvolvido, a geometria egípcia, a astronomia babilônica, a navegação fenícia, e as submeteu a uma pergunta que essas tradições nunca haviam formulado com a mesma radicalidade. Quis saber por quê as coisas são como são e do que elas são feitas.
A Água como Princípio de Tudo
A proposição mais famosa de Tales é que a água é o princípio de todas as coisas, o arché, a substância fundamental da qual tudo emerge e à qual tudo retorna. Para a maioria das pessoas que encontram essa ideia pela primeira vez, ela parece ingênua, uma hipótese claramente falsa que só tem interesse histórico como primeiro passo de uma longa caminhada em direção à física moderna.
Essa leitura subestima a profundidade do que Tales estava fazendo. A questão relevante é o tipo de pergunta que Tales estava fazendo ao propor isso. Tales estava afirmando que existe uma unidade subjacente à diversidade aparente do mundo, que a multiplicidade de formas e substâncias que percebemos é a manifestação de um único princípio fundamental, e que esse princípio pode ser identificado e nomeado através da razão e da observação.
Essa estrutura de pensamento, a busca por um princípio unificador por baixo da multiplicidade aparente, é o coração do projeto filosófico ocidental e permanece viva na física contemporânea. A teoria das cordas, a busca por uma teoria unificada dos campos, a procura pelo que os físicos chamam de Teoria de Tudo, são versões sofisticadas da mesma pergunta que Tales formulou às margens do Mediterrâneo dois mil e seiscentos anos atrás.
A escolha da água como candidata ao arché também não era arbitrária. A água é a única substância comum que os gregos conheciam capaz de existir nos três estados, sólido, líquido e gasoso. Ela é necessária para toda vida conhecida. Está presente nos alimentos, no corpo, no ar, na terra. Aristóteles, que é nossa principal fonte sobre Tales, sugeriu que ele pode ter chegado à água observando que o nutritivo de todas as coisas é úmido e que o calor vivo procede da umidade. É uma observação empírica generalizada numa hipótese cosmológica, que é precisamente o movimento intelectual que distingue a filosofia do mito.
A Predição do Eclipse
O episódio que tornou Tales famoso no mundo antigo foi sua predição do eclipse solar de 28 de maio de 585 a.C. A fonte é Heródoto, que escreve que Tales havia anunciado aos jônios que haveria um eclipse naquele ano, o que se confirmou durante uma batalha entre os medos e os lídios, interrompendo o combate e levando os dois lados a negociar a paz.
Como Tales teria feito essa predição é uma questão que os historiadores da ciência debatem há séculos. Os gregos do século VI a.C. não tinham o modelo matemático da mecânica celeste necessário para calcular eclipses com precisão. A hipótese mais plausível é que Tales utilizou o ciclo de Saros, um período de aproximadamente dezoito anos após o qual os eclipses se repetem em configurações similares, que os babilônios haviam identificado empiricamente através de séculos de observação sistemática. Tales reconheceu o padrão que tornava o eclipse provável.
Essa distinção é importante para entender o método de Tales. Ele operava na fronteira entre a observação acumulada e a generalização racional, numa região onde o conhecimento empírico de tradições antigas era reinterpretado através de uma estrutura que buscava princípios gerais em vez de apenas catálogos de casos. Essa fronteira é precisamente onde a ciência opera quando está sendo mais produtiva.
A Alma em Todas as Coisas
Além da água como arché, as fontes antigas atribuem a Tales uma segunda proposição que é filosoficamente ainda mais rica e que conecta seu pensamento com as tradições herméticas e alquímicas que floresceriam séculos depois. Tales teria dito que tudo está cheio de deuses, e que a pedra de ímã tem alma porque move o ferro.
Essa doutrina, chamada pelos historiadores de hilozoísmo, a ideia de que a matéria está animada, que vida e movimento são propriedades intrínsecas do real e não adições externas a uma matéria passiva, atravessa toda a tradição hermética. O Corpus Hermeticum afirma que o cosmos é um ser vivo permeado pelo Nous divino, que a matéria e o espírito não são substâncias radicalmente separadas mas expressões diferentes de um mesmo princípio. Quando Hermes Trismegisto descreve a natureza como um organismo inteligente que responde ao conhecimento do praticante, está elaborando filosoficamente algo que Tales havia intuído ao observar o ímã.
A alquimia herdou diretamente essa intuição. Para os alquimistas, os metais eram organismos em desenvolvimento, cada um com seu caráter próprio, seus ritmos de transformação, suas afinidades e repulsões. O laboratório alquímico era um espaço onde o operador entrava em relação com forças que habitavam a matéria, não onde ele impunha sua vontade a um material passivo. Essa visão de mundo tem uma linhagem direta que passa por Plotino, pelo hermetismo alexandrino e remonta à proposição de Tales de que tudo está cheio de deuses.
O estoicismo desenvolveu uma versão racionalizada dessa intuição. A doutrina estoica do pneuma, a substância sutil que permeia o cosmos e confere coesão e vida a cada coisa, é uma elaboração filosófica da mesma ideia fundamental. Marco Aurélio, escrevendo nas Meditações sobre a razão que permeia tudo e à qual a razão humana participa, está pensando numa tradição que Tales iniciou quando se recusou a aceitar que a matéria é muda e inerte.
Curiosidades que as Fontes Preservaram
Diógenes Laércio, compilador de vidas e opiniões dos filósofos antigos, preservou vários episódios sobre Tales que iluminam sua personalidade com uma vivacidade que os textos filosóficos secos não conseguem transmitir.
O mais famoso é a história da escrava trácia que riu de Tales quando ele caiu num poço enquanto observava as estrelas, dizendo que ele tentava ver as coisas do céu mas não via o que estava à sua frente. O episódio foi citado por Platão no Teeteto como exemplo da tensão entre o filósofo voltado para as verdades eternas e a vida prática imediata, e atravessou dois milênios e meio como a piada mais duradoura da história da filosofia.
Há também a história de que Tales, cansado de ser ridicularizado por sua pobreza como prova de que a filosofia era inútil, usou seu conhecimento astronômico para prever uma safra excepcional de azeitonas e alugou com antecedência todas as prensas de azeite da região. Quando a safra chegou e todos precisavam das prensas, ele as subalugou a preços altíssimos, ficou rico e então abandonou o negócio, tendo demonstrado que o filósofo pode enriquecer quando quer, mas que tem objetivos mais interessantes do que isso.
A anedota é provavelmente uma construção posterior, mas ela captura algo verdadeiro sobre a posição social do filósofo no mundo grego antigo e sobre a defesa que os filósofos precisavam fazer de sua escolha por uma vida dedicada ao pensamento em vez de à acumulação.
Diógenes atribui a Tales também um conjunto de máximas morais que o aproximam do espírito estoico antes que o estoicismo existisse. Entre elas, a instrução de que se deve evitar fazer aquilo que se critica nos outros, de que a coisa mais difícil é conhecer a si mesmo e a mais fácil é aconselhar os outros, e de que a felicidade de um ser humano depende não do corpo nem das riquezas mas da retidão da alma. Essas formulações antecipam com precisão notável os temas centrais do estoicismo de Epicteto e Marco Aurélio, o que sugere que Tales foi simultaneamente o fundador da filosofia natural e um dos primeiros articuladores do projeto ético que a filosofia grega perseguiria por séculos.
O Fundador e o que a Fundação Significa
A tradição filosófica grega, de Aristóteles a Diógenes Laércio, reconheceu Tales como o primeiro filósofo, o iniciador de uma linhagem de pensamento que definiria a civilização ocidental. Essa canonização tem seus problemas, já que havia pensadores em outras culturas fazendo perguntas similares, e que a linha entre Tales e seus predecessores egípcios e babilônios é mais porosa do que a narrativa canônica admite.
Mas há algo genuíno na distinção que a tradição grega quis marcar. Tales foi alguém que se perguntou sobre o princípio de tudo e achou que a pergunta era respondível por meios humanos. Foi alguém que se perguntou sobre o princípio de tudo e achou que a pergunta era respondível por meios humanos. Essa confiança na razão como instrumento capaz de alcançar verdades sobre a estrutura do real, sem a mediação obrigatória de uma revelação divina ou de uma autoridade sacerdotal, é o gesto fundador que a tradição filosófica ocidental reconheceu em Tales e do qual nunca conseguiu completamente se afastar.
O hermetismo alexandrino, que bebeu de fontes egípcias e orientais tanto quanto gregas, preservou esse impulso numa forma que o integrava com a dimensão espiritual que o racionalismo filosófico tendia a marginalizar. A síntese hermética afirmava que razão e iluminação espiritual são o mesmo caminho percorrido em diferentes profundidades. Tales, com sua afirmação de que tudo está cheio de deuses e sua busca simultânea por um princípio racional que unifica o cosmos, habitava essa tensão sem resolvê-la, o que talvez seja o sinal mais seguro de que estava no lugar certo.
A pedra de ímã que move o ferro sem ser vista, que Tales usou como evidência de que a alma habita a matéria, continua sendo uma imagem poderosa. Há forças que agem sem que possamos observá-las diretamente, princípios que organizam o real a partir de um nível que a percepção ordinária não alcança. A tarefa de quem pensa seriamente é desenvolver a sensibilidade para perceber esses princípios em operação através da observação paciente e da disposição de seguir o argumento onde ele levar, mesmo que isso signifique cair num poço de vez em quando.